Luto

MST homenageará Antonio Candido ao batizar biblioteca da ENFF com seu nome

Candido participou da inauguração da biblioteca da Escola, em 2006.

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Um dos espaços da Escola Nacional Florestan Fernandes homenageará professor falecido na sexta-feira (12) / Marcos Santos/USP Imagens

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) homenageará o crítico literário Antonio Candido, falecido na sexta-feira (12) aos 98 anos, batizando em sua homenagem a biblioteca de seu maior centro de formação, a Escola Nacional Florestan Fernandes (Enff).

“É uma decisão do Movimento. Possivelmente faremos [a cerimônia de nomeação] até o início de junho”, diz Rosana Fernandes, uma das coordenadoras da ENFF. Ela lembra que Antonio Candido participou da inauguração da biblioteca da Escola, em 2006. Na data, o local já contava com um acervo de 17 mil volumes, que cresceu ao longo dos anos. Hoje a biblioteca já conta com mais de 40 mil livros, todos doados.

Candido discursou na ocasião, elogiando a iniciativa do MST. “A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada. Portanto, parabéns ao MST pela abertura desta biblioteca, porque o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões”, disse no encerramento de sua fala.

Amizade

A fala do crítico literário em um espaço vinculado ao nome de Florestan Fernandes não havia sido o primeiro. Um ano antes, quando a biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo havia sido unificada e batizada em homenagem ao sociólogo - falecido em 1995 -  Candido também discursou.

Ao lado de Sérgio Buarque de Hollanda, Florestan era um dos maiores amigos de Candido. Em comum, além da instituição de ensino no qual trabalhavam, havia também a visão socialista de mundo, considerada por ele uma “doutrina triunfante”.

Os três foram parte dos intelectuais envolvidos na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), nos anos de 1980. Candido trabalhou na candidatura de Florestan Fernandes à Câmara dos Deputados, que foi eleito e reeleito. Um ano após a morte deste, em 1996, o crítico literário publicaria um livro em homenagem ao amigo.

Diversos acadêmicos prestaram suas homenagens a Candido. André Singer, professor titular de Ciências Política na USP, ressaltou a importância política do crítico literário em e-mail enviado ao Brasil de Fato:

“Além de ter sido um dos maiores pensadores do Brasil, Antonio Candido ajudou, de maneira decisiva, a fixar o socialismo democrático como alternativa ideológica no país. A sua morte é uma perda inestimável, para os brasileiros em geral e para os socialistas democráticos, em particular”.

A professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Ermínia Maricato, ressaltou que a obra e o exemplo de Candido marcaram gerações e que sua obra intelectual ultrapassou os limites tradicionais entre disciplinas.  

“Ele representou a resistência de olhar para o Brasil. Com toda força que tem a enxurrada de dominação intelectual, cultural e mercadológica, há pessoas como ele que olham para o país e tira dele uma luz intensa de conhecimento, sabedoria e informação. A elite brasileira, a mídia, a própria universidade tem todo um movimento forte de alienação, de esconder o que é a realidade brasileira. Candido mostrou que existe criatividade, originalidade - vida em si - na produção intelectual e cultural brasileira”.

Edição: Camila Rodrigues