Coluna

Inimigos do Brasil

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Aécio e Andréa operaram contra o Brasil por questões de deficiência de caráter, moral, ambição e entendimento da lei / Agência MG / Arquivo
Aécio e Andrea: política padrão máfia

Mais uma vez os três personagens que escreveram um dos capítulos mais indignos da história republicana brasileira estão juntos no noticiário: Aécio Neves, Eduardo Cunha e Michel Temer. A inspiração no que têm de pior ajudou a criar uma crise que estagnou a economia, abriu o flanco para reformas antipopulares, recompôs o pacto financista, jogou milhões no desemprego e reverteu a dura construção de um projeto de sociedade inaugurado com a Constituição de 1988.

Aécio, por vingança mesquinha pela derrota imposta pelas urnas, Cunha, por ambição de grana e poder, e Temer, pela covardia e mediocridade, os três se juntaram para destruir o país numa aventura golpista que encontrou no caminho uma canalha numerosa, representada por empresários, políticos, setores da classe média e imprensa. Aos poucos, o ordenamento jurídico foi sendo pervertido, substituindo a Constituição pela direito penal, a cidadania pelo mercado, num processo de judicialização da política que rebaixou a tradição do Judiciário a defesa togada do golpe. O Supremo nunca foi tão ínfimo.

As revelações dos crimes de Temer, Aécio e Cunha podem sugerir uma falsa democratização das investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, como se agora tivesse “sobrado para todo mundo”. Não foi bem assim. O acompanhamento das ações realizadas seguia uma inegável tendência à perseguição de determinadas lideranças e partidos, deixando sempre escapar a sombra a frouxidão e impunidade entre os sócios do golpe. A senha era dada tanto no trato desigual das denúncias e provas, como na exibição de simpatia e sorrisos entre juízes e determinados investigados.

A mudança de lado pode gerar muitas especulações, até mesmo a do descarte de aliados em razão do temor de contaminação de toda a banda podre do poder. A imprensa se apressa em exibir uma atenção a fatos conhecidos como se tratasse de novidade. O vazamento teve como canal de escolha a empresa que vinha patrocinando o golpe com uma sofisticada rede de apoio e filiação de intelectuais orgânicos, convocados na academia, em think tanks e em suas próprias hostes. A surpresa ficou apenas para os ingênuos.

Certamente a alteração nos rumos da investigação, inclusive com operações estruturadas da Polícia Federal, que sai fora do conforto das delações premiadas para fazer seu trabalho, se explica pela reação popular. Foi a pressão nas ruas, a greve geral e mobilização dos movimentos sociais que trouxeram à luz as denúncias. Não há mais como esconder que o país foi vítima de um golpe e que ele se acha em movimento. Toda a tentativa, por exemplo, de eleições indiretas ou de conciliação por cima é apenas um corolário da usurpação.

A sociedade deve manter a pressão e recuperar o terreno perdido pelo arbítrio. Não se pode aceitar a continuidade das reformas trabalhista e da previdência, que são derivações do golpe. É também inaceitável a política de desnacionalização da Petrobras, entre outras ações que não são apenas impopulares, como querem alguns, mas antidemocráticas e criminosas. A clareza com que a tomada do poder agora se revela exige que se rompa com todos os acordos e processos realizados em seu nome. A queda de Temer deve ser, para ter sentido republicano e democrático, a desmontagem de tudo que foi perpetrado durante o último ano.

Sem eleição direta, a única resposta é a desobediência civil.

O caso dos Neves é também exemplar de uma reversão de expectativas. O crime dos irmãos, que já afastou Aécio de seu cargo e está dissolvendo seu partido, e levou Andréa para a prisão, não é resultado da atual denúncia. Trata-se de uma história construída de ações contra a sociedade brasileira ao longo de décadas, com a reiterada conivência da imprensa, do mundo político e do Judiciário. Aécio e Andréa operaram contra o Brasil por questões de deficiência de caráter, moral, ambição e entendimento da lei. Seu maior crime não foi receber dinheiro da JBS, mas tudo que o levou até este ponto.

Aécio e Andréa fizeram em Minas Gerais um governo que ficou conhecido por não aplicar recursos públicos em sua destinação legal. Corromperam a imprensa, toda ela, às custas de publicidade pública e crédito facilitado e nunca cobrado. Censuraram e perseguiram jornalistas.

Cobraram porcentagens para realizar obras públicas, entre elas uma cidade administrativa, o que dá a escala da ambição. Nomearam parentes aos montes. Traficaram influência na indicação de cargos considerados estratégicos em empresas públicas. Construíram um aeroporto em terreno familiar.

Conseguiram concessões de rádio mesmo com a proibição legal. Estiveram ligados a denúncias envolvendo droga encontrada no helicóptero dos Perrela (que agora retornam como destinatários de dinheiro a ser lavado). Sem falar de questões pessoais, que não seriam tão relevantes caso não fossem eles pessoas públicas: machismo, arrogância, prepotência e até dirigir alcoolizado.

Nada no entanto que chegue ao nível da afirmação do senador afastado sobre a indicação de um capanga para recolher extorsão. Ao escolher o próprio primo, que teve sua obediência registrada pelas câmeras da PF, Aécio lembrou que a morte é uma possibilidade que ameaça a vida dos laranjas inconfiáveis. Por isso o crime é assunto de famiglia. Para um tempo em que a política se mede pela régua da polícia, os Neves levaram o sarrafo dos crimes ao padrão da máfia.