Violência no campo

"Gerações vão sempre se lembrar da impunidade", diz psicóloga sobre massacre no Pará

Só no mês de maio, foram registradas 18 mortes de trabalhadores rurais no estado; no episódio mais recente, morreram 10

Belém

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A fazenda Santa Lúcia, local onde ocorreram as mortes dos 10 trabalhadores possui uma extensão de terra de mais de 5mil hectares / Lilian Campelo

“O adoecimento psíquico o sofrimento emocional que ficam para os familiares das vítimas não acaba com a vítima. O massacre se perpetua nos familiares todos os dias. A gente entende que é a violência, que é muito semelhante à violência da tortura, é geracional, ela não se encerra com a vítima: as gerações futuras vão sempre lembrar da impunidade, da falta de direitos”. A declaração é de Jureuda Guerra, membro do Conselho Regional de Psicologia (CRP) ao comentar o massacre que resultou na morte de dez camponeses no município de Pau D’Arco, sudeste do Pará nesta quarta-feira (24), vítimas de uma ação policial.

Para que a situação de impunidade descrita por Guerra não se consolide, uma comissão formada por parlamentares e representantes de entidades de direitos humanos e segmentos sociais irão nesta sexta-feira (26) até Pau D’Arco com a missão de colher depoimentos dos familiares das vítimas.

A decisão foi anunciada durante a entrevista coletiva de imprensa, que ocorreu nesta quinta-feira (25), realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor (CDHDC) da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa).

Segundo o deputado estadual Carlos Bordalo (PT-PA), presidente da comissão, as informações servirão de base para a construção de um relatório, que deve ser entregue a até semana que vem na assembleia legislativa. “A comissão de deputados vai para colher depoimentos e informações para, na semana que vem, apresentar um relatório ao Parlamento do Pará para providenciar que haja punição exemplar de quem teve efetivamente culpa neste evento lamentável”, disse Bordalo.

Durante os pronunciamentos, havia ainda muitas dúvidas sobre como ocorreu a ação policial, quem autorizou e, principalmente, porque os corpos das vítimas foram retirados do local do crime, como indagou o deputado estadual Nélio Costa (PCdoB): “Naturalmente, diante de uma tragédia, o estado aprisiona os agentes que participaram [do crime], esse é o protocolo. Por que ainda não foi feito isso? Outro detalhe importantíssimo: Quem foi o responsável por descaracterizar a cena do crime?”.

Criminalização

Paula Arruda, diretora do Laboratório de Justiça Global e Educação em Direitos Humanos na Amazônia (Lajusa), da Universidade Federal do Pará (UFPA), afirma que só no mês de maio já foram registradas 18 mortes de trabalhadores rurais no estado. Segundo ela, é recorrente a criminalização de movimentos sociais. Logo, "o caso não pode ser visto de forma isolada", acrescenta.

“Então o discurso de que se tratou de um cumprimento de mandato preventivo de prisão contra criminosos, pensados como potenciais assassinos de um segurança privado, não pode estar desvinculado da lógica dos conflitos de terras”, ressalta.

Ainda segundo Arruda, na área ocupada vivem, há seis anos, mais de 120 famílias. Ela conta que representantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri) informaram que o número de mortos “só não foi maior, não se tratou de genocídio em razão que as pessoas estavam trabalhando e não estavam na ocupação”. Durante coletiva também foi informando que das dez pessoas mortas, sete pertenciam à mesma família.

Edição: Vanessa Martina Silva