Coluna

A verdade está nas ruas

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Em Belo Horizonte, a ação policial contra os camelôs no centro da cidade é mais uma evidência do olhar higiênico e insensível / Mídia NINJA
Golpe e higienismo contra a vida

Os balanços sucessivos das consequências do golpe contra a sociedade e a democracia brasileiras vão somando retrocessos a cada dia. Fim de programas sociais nas áreas de saúde e habitação, como o Mais Médicos e Minha Casa Minha Vida, que vegetam em razão do desmonte e falta de investimento.  Projetos de reformas antipopulares nos campos do trabalho e da previdência, tocados com estratégias de cooptação e achaque, inaugurando uma era da pós-segurança social – algo que nem os inventores do neoliberalismo chegaram a tentar.  

E tem muito mais. Austeridade dirigida que canaliza gastos públicos para interesses privados, deixando incólume a ferramenta da chantagem e do paroquialismo parlamentar do baixo clero, enquanto estanca investimentos em áreas estruturais. Política de juros que sustenta o sistema financeiro, agregada à entrega do patrimônio nacional ao interesse dos países ditos centrais, mezzo cassino, mezzo desmonte. Destruição da comunicação pública e até um inconcebível masoquismo, que leva o governo não eleito a pagar cada vez mais caro para apanhar da imprensa que alimenta a pão de ló e ouro em pó.

O saldo de destruição das políticas públicas e distributivas poderia se estender por muitas páginas, alcançando todos os poderes da República, do Legislativo venal ao Judiciário seletivo, capitaneado por um Executivo que congrega o que de pior o sistema político construiu nas últimas décadas. Sem falar no extermínio das estratégias democráticas em nome do autoritarismo centralizador e da recrudescência da violência policial como instrumento de governo. O mais grave é que o método ditatorial, em forma e essência, se reproduz na sociedade como uma metástase. O golpe deixou de ser uma sombra para se tornar uma espécie de sol que não emite luz. Um buraco negro.

É, no entanto, nas ruas das grandes cidades, que a situação vai se mostrando, dia a dia, cada vez mais insustentável. O que ocorre nas esferas de poder é apenas um indicativo cruel do que é traduzido no chão dos dias em forma de sofrimento, desemprego, crueldade, dor, desamparo e morte. Fatos recentes, observados nas maiores cidades brasileiras, demonstram o sentido real da trama montada com o ataque à democracia. Não se trata de um conjunto de sintomas da crise, mas de afirmação de um caminho trilhado com determinação.

Em São Paulo, a política de combate ao consumo de crack conseguiu atrair a discordância universal pela concepção, forma e consequência. Numa estratégia que passou por cima dos sujeitos, dos direitos humanos e até mesmo da ciência, a prefeitura e o governo do estado jogaram fora um patrimônio de aproximação e acolhimento que vinha sendo construído ao longo dos anos. Chutou o pau da barraca.

O resultado, como se viu, foi a utilização da força policial, a criação do pânico e a perda da confiabilidade do setor público, o que significa um prejuízo incalculável nas políticas assistenciais. Em matéria policial, de combate ao tráfico, o resultado foi pífio. O deslocamento da cracolândia, de uma rua para outra, numa dança desgraciosa e burra, foi a prova do limite dos planejadores da ação.

No Rio de Janeiro, a morte em razão de ações policiais nas comunidades dominadas pelo tráfico, intensificou sua história de horror, com a morte de crianças, mulheres e trabalhadores por balas perdidas. O bebê, ferido gravemente, ainda na barriga da mãe, é uma triste metáfora do horizonte de futuro das pessoas que cometeram o crime de nascer numa região pobre. A estratégia de combate ao tráfico tem sido o confronto nas áreas pobres da cidade. O estado assume o risco de matar, mas não reconhece sua responsabilidade com as mortes ocorridas.

Na mesma semana, operações escancararam a ligação intestina entre o crime e setores da própria polícia na cidade e na Baixada Fluminense. São parceiros em ações que dividem desprezo pela vida, dinheiro sujo e até vocabulário. A contabilidade das mortes na cidade alcança padrões de guerra civil, que dizimam pobres e negros, sem deixar escapar crianças no ventre das mães. Este ano, foram 632 pessoas atingidas por balas perdidas na cidade – uma a cada sete horas – , das quais pelo menos 67 morreram.

Em Belo Horizonte, a ação policial contra os camelôs no centro da cidade é mais uma evidência do olhar higiênico e insensível, que persegue uma população que busca sobrevivência numa conjuntura onde o emprego formal foi dizimado pela política econômica restritiva. A saída procurada pela prefeitura tem sido afastar as pessoas das ruas, oferecendo vagas em shoppings populares. Em outras palavras, não se trata do comércio em si, mas da presença no espaço público.

No entanto, em vez de conversa, tem se observado porradas como primeira abordagem. Não se discute a ocupação urbana, o código de posturas e até as alternativas apresentadas por urbanistas, que defendem a regulação do comércio nas ruas como um ativo social, que retorna em segurança e até mesmo vitalidade. O higienismo, apesar de sua origem aparentemente vitalista, parece não entender de saúde urbana: quer revitalizar tirando a vida das calçadas.

Há, nos três casos, uma mesma base de ação: retirar as pessoas desagradáveis do convívio da sociedade. Não se trata de resolver os problemas dos dependentes químicos, da segurança pública ou do desemprego, mas de evitar sua exibição à luz dos compromissos e responsabilidades dos agentes públicos e dos próprios cidadãos.

O golpe intensifica a injustiça social, exacerba as ações fundamentadas na repressão e expõe o atraso das políticas públicas em momentos particularmente graves. Quando as ruas gritam, é disso que se trata. Em todos os sentidos.