Coluna

O apreciador de serenatas

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A “capital da seresta” fica no Rio de Janeiro, na cidade de Conservatória / Arquivo/TV Brasil
Não sei cantar, mas acompanhava amigos cantando debaixo da janela da namorada

Desde adolescente eu sou um apreciador de serenatas. Não sei cantar, mas acompanhava amigos cantando debaixo da janela da namorada. 

Há um bom tempo, fiquei sabendo de um povoado que é considerado a “capital da seresta” do estado Rio de Janeiro. Chama-se Conservatória, e fica na serra, perto de Valença.

Fiz questão de ir lá, com a minha mulher e meu amigo Gonzaga. 

No sábado à noite, fomos ao Museu da Seresta. Na verdade, duas saletas com um montão de fotos coladas nas paredes. Um monte de gente da terceira idade se reunia ali para cantar músicas antigas e algumas composições próprias.

Podia ser um ambiente agradável, mas os frequentadores, pelo menos na época, pareciam não se divertir muito. Em primeiro lugar, não cabia muita gente lá. Uma boa parte ficava de pé, na calçada. 

E todos ficavam muito sérios ouvindo cada um que ia lá na frente cantar, às vezes cantando juntos também, mas sem nenhum sorriso. 

Parecia uma obrigação, manter a tradição da seresta, e não um prazer, uma atividade agradável. 

A minha mulher não aguentou ficar muito tempo ali, do lado de fora, vendo e ouvindo os velhinhos cantarem como se estivessem numa cerimônia fúnebre. 

Foi nos esperar num bar. Gonzaga, que se divertia com qualquer coisa, achava tudo muito interessante. 

A certa altura, um homem ocupou o centro da sala e falou sério:

— Esta música, vou oferecer à Maria do Carmo.

Uma mulher aparentando 80 anos, fora da casa, ao nosso lado, deu risinhos, enquanto outras falavam pra ela:

— É pra você, vai lá.

Ela só sorria, mas não saía do lugar. 

Acho que era obrigatória a permanência da homenageada em frente ao cantor, porque ele não iniciava o canto. 

As amigas tentavam fazer a mulher entrar na sala, mas ela não se mexia. Aí o homem que iria cantar falou mais uma vez, em tom mais sério e mais alto:

— Esta música, eu vou oferecer à Maria do Carmo.

Ela sorriu mais uma vez e as amigas a incentivaram a ir para o centro da sala. Aí foi. Subiu vagarosamente o degrau de uns quinze centímetros que dava acesso à sala, virou-se para trás e falou para as amigas, com ar vaidoso e de enfado:

— Ah… Este degrau me mata!

Não aguentamos. Gonzaga e eu saímos dando gargalhadas, para horror dos que acompanhavam tudo com ar solene.