Polarização

A Assembleia Constituinte da Venezuela sob o olhar da comunidade "23 de Enero"

Desde o início da República Bolivariana, o conjunto de urbanizações populares se tornou símbolo do projeto socialista

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Panorâmica do 23 de Enero, Zona Oeste de Caracas / Americo Morillo

Um dos bairros mais aguerridos politicamente da região oeste de Caracas é o 23 de Enero, que leva o nome da data (23 de Janeiro) do fim da ditadura de Marcos Pérez Jimenez, que governou o país entre os anos de 1952 e 1958.

Desde o começo da denominada Revolução Bolivariana, o conjunto de urbanizações populares se tornou símbolo do projeto socialista e da defesa dos governos revolucionários. Lá não houve nenhum tipo de protesto ou greve contra a Assembleia Constituinte.



Ruas da comunidade Andrés Eloy Blanco, em 23 de Enero; neste mesmo dia, houve protestos na região leste de Caracas/Foto: Camila Rodrigues da Silva 

“São duas realidades diferentes. Aqui as pessoas estão trabalhando, tocando suas vidas. Inclusive, os que não estão trabalhando aqui é porque estão impedidos de chegar aos seus locais de trabalho, por conta da violência desses grupos no outro lado da cidade”, afirmou Irene Mendoza, moradora do bairro Andrés Eloy Blanco.

Irene Mendoza e sua filha, Patrícia Cebreiros, em sua casa/Foto: Camila Rodrigues da Silva 

Segundo sua irmã, Carmen Rosa, também moradora do 23 de Enero, houve um descenso no nível de consciência da população nos últimos anos, sobretudo dos jovens, que passaram a ser cooptados pelo discurso da mudança. Mas, para ela, a grande mudança será o processo constituinte, do qual fala com esperança:

“Eu sinto que em todos os processos acontece o mesmo: momentos de avanço e momentos de retrocessos, ou de estagnação. E eu espero que esta constituinte seja o gatilho, a base para que voltemos a avançar”.

Assim como em 1999, quando foi realizada a última Assembleia Constituinte na Venezuela, a oposição ao governo de Nicolás Maduro decidiu não participar do processo. Desta vez, um dos principais argumentos é a defesa da constituição que eles mesmos rejeitaram.

“Houve um momento que eles pediam a constituinte, mas nunca organizaram, pois nunca tiveram nem ideia de como organizar um processo como este. Eles têm medo da constituinte porque eles sabem que não têm povo”, disse Rosa.

Aos 84 anos, o camponês Domingos Mendoza relembra os governos anteriores à revolução, quando havia um nível de pobreza generalizada no país, que já era um dos maiores produtores de petróleo do mundo. “É a primeira vez na história que eu vejo um governo que se lembra dos pobres, dos camponeses”.



Domingos Mendoza, 84 anos/Imagem: Camila Rodrigues da Silva

Segundo ele, somente depois da chegada de Hugo Chávez ao governo, foi possível reverter o quadro de miséria social, diminuindo a brecha social que existia. E em sua opinião, hoje protestam aqueles que perderam privilégios a partir dos governos revolucionários. “Eles sabem que esta constituinte vai tirar ainda mais privilégios, porque senão não fariam tudo o que estão fazendo. Eles dizem que têm maioria. Então porque não aceitam ir à constituinte, se sabem que vão ganhar?”

O senhor Domingos não entende porque há uma enorme mobilização internacional em torno à constituinte venezuelana, quando outros países, como o Brasil, enfrentam graves situações de ataques à democracia e aos direitos do povo. “Eu vejo pela televisão o que está acontecendo no Brasil. Vocês têm um presidente que já está provado que é um corrupto. E porque não o prendem? Porque não o destituem?”, perguntou.

Entrada de uma residência no bairro Andrés Eloy Blanco, em 23 de Enero/Foto: Camila Rodrigues da Silva

Edição: Camila Rodrigues da Silva