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O frio e a boa desculpa para começar uma conversa

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Massa polar provoca geada em várias regiões de Santa Catarina no começo de junho / Divulgação/Defesa Civil de Santa Catarina
Onde se vive da agricultura, a geada pode ter efeitos arrasadores

Eita frio lascado! Fez frio em muitos lugares no mês de julho. 

Nas cidades, o frio não faz muito estrago, a não ser pros coitados dos moradores de rua. Muitos deles não encontram abrigos e passam muito mal, podendo até morrer de frio.

Mas onde se vive da agricultura, pode gear e às vezes a geada tem efeitos arrasadores. É assim na minha terra, Nova Resende, no alto de uma montanha no sul de Minas.

Lá chega a gear de vez em quando. E se uma geada é muito forte, queima todos os cafezais, que são a base da economia. 

Este ano, acompanhei um pouco as notícias de lá, e ouvia falar do medo de geada. As temperaturas, nos dias mais frios, chegaram perto de zero. Para alívio geral, não geou, pelo menos até acabarem a colheita de café. 

Pode ser que ainda ocorram geadas, mas tomara que não. 

Já faz uns 30 anos que aconteceu uma das piores geadas no município. Arrasou todos os cafezais, foi uma coisa muito triste. Uma pindaíba geral. 

Tornou-se comum ver fazendeiro falando sozinho. Todo mundo andava de cara amarrada, com incerteza sobre o que viria no futuro e sem saber como pagar as dívidas, os empréstimos bancários. 

Só o Arnaldo andava contente, assobiando, feliz da vida. Perguntei a ele porque tanta alegria e ele disse:

— Eu andava sem assunto, não tinha com quem conversar aqui. Ia falar com um roceiro qualquer, o assunto dele era Banco do Brasil, dólar, exportação, essas coisas que eu não entendo nada. Ia conversar com outro, era a mesma coisa. Agora não, todo mundo fala coisa que eu entendo. É falta de dinheiro, é pescar lambaris… Acabou a mania de grandeza.

— Mas, Arnaldo, e a miséria que vem aí? — um amigo perguntou.

E ele respondeu:

— Nada, sô… A gente acostuma. Dois fazendeiros que só falavam em dólar, eu encontrei ali atrás. Sabe o que eles estavam fazendo?

— Hum… Hum… — ruminou o amigo.

E ele concluiu:

— Um tava breganhando um canivete com o outro, em troca de um pedaço de fumo. 

E saiu assobiando alegre.