Coluna

Fascistas saem das sombras

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"Brasil pós-Temer é um país mais pobre, mais injusto, mais violento, menos preparado para o futuro" / Marcos Corrêa / PR
O governo Temer é uma é uma antessala do fascismo

O escritor americano de ficção científica Phillip K. Dick, autor do romance que deu origem ao filme Blade Runner, tinha a capacidade de deixar pistas sobre o que se desenhava no horizonte. Como é próprio dos autores que lidam com os pesadelos do futuro, ele tinha um olhar singular sobre o tempo. No livro “O homem do castelo alto”, o escritor criou uma história paralela, na qual a vitória da Segunda Guerra Mundial teria sido do eixo nazifascista, dividindo os Estados Unidos entre uma costa dominada por japoneses e outra comandada pelos alemães.

Na fantasia distópica – o contrário da utopia – o romancista defendia também a hipótese de que a vitória dos aliados poderia fazer parte de um futuro alternativo. Assim, de uma vez só, Dick afirmava que a realidade não era única e que em seu interior habitavam outras possibilidades. O argumento do escritor poderia ser o roteiro ideal para o Brasil de Temer. Vivemos dois países e dois tempos em uma só realidade.

O governo não eleito sabe que é fraco e compra seu apoio com os mais sórdidos instrumentos. No entanto, no mesmo tempo histórico, mantém com determinação seu projeto de desmontagem do Estado social, numa eficiência de fazer inveja aos golpistas de outras épocas. Quem chamaria de fraco um governo capaz de propor a privatização do setor elétrico, entre outros, e de abrir a exploração mineral em áreas de preservação na Amazônia, como anunciado esta semana? Sem falar na concessão de poderes paralelos quase absolutos ao Judiciário, que se torna protagonista político espúrio; e ao Legislativo, que define em causa própria os rumos do sistema eleitoral.

A ficção científica da política brasileira acabou por gerar certo comportamento ambivalente da resistência da cidadania, que parece se perder sobre a prioridade das ações. Assim, vamos assistindo derrotas seguidas, com certo ar de inevitabilidade, enquanto se empurra a ação para o próximo confronto eleitoral. Com seu roteiro diversionista, o eixo usurpador derrama sobre o país um bloco de decretos e medidas provisórias, fugindo a todo debate público, em processos que atropelam a democracia. Os prejuízos, no entanto, não serão resgatados na próxima eleição, qualquer que seja o resultado.

Já estão na conta do golpe ações radicais de extermínio dos princípios constitucionais e de retirada de direitos, que vão muito além da mediocridade do atual condomínio do poder, e que serão dificilmente retomados. Trata-se do enterro da CLT e da entrega de riquezas estratégicas ao capital internacional. Do corte de investimentos básicos para garantir a sangria financista. Da interrupção dos programas sociais de educação, saúde e habitação. Da entrega de áreas de reserva ambiental e indígenas ao apetite extrativista. Da privatização que dilapida o patrimônio público de hoje e inviabiliza as ações indutoras de desenvolvimento a médio prazo.

Em outros termos, o Brasil pós-Temer é um país mais pobre, mais injusto, mais violento, menos preparado para o futuro, doente e patrocinador de danos irreparáveis ao meio ambiente. Do ponto de vista do sistema político, se caracteriza por ser menos republicano, menos democrático, mais concentrador de poder, menos permeável à mudança, menos honesto e mais autoritário. No campo dos valores, mergulhamos num caldo de machismo, violência, homofobia, racismo e desrespeito sistemático aos direitos humanos. O que chama atenção, e dá o caráter de aparente absurdo, próprio da ficção, é que tamanho prejuízo em termos de civilização se edifique justamente a partir de um governo fraco em todos os aspectos.

Essa narrativa parece se encaminhar de forma rápida em direção ao fascismo. Não é um acaso que figuras como Bolsonaro e outros espécimes do mesmo DNA político emerjam das sombras de forma orgulhosa. Em si eles não importam e possivelmente não terão capacidade de ir adiante em seus projetos, dada a fragilidade de suas ideias e do limite moral de seus métodos. Mas só o fato de que existam, que tenham seguidores que não exibam constrangimento, que cresçam em visibilidade na mídia oligopolista e tenham representação partidária disputada por várias legendas é bastante preocupante e sintomático. Há um caldo de cultura fascista no ar.

O fascismo tem uma covardia básica em sua constituição. Ele vive nos subterrâneos pantanosos quando há a luz da razão. Os fascistas sabem se esconder por muito tempo, à espera de condições propícias. Quando começam a se mostrar com todo o horror que emanam, é sinal de que há algo de muito podre na sociedade. Quando se apresenta como possibilidade, ainda que distante, a derrota moral já se instalou. O governo Temer, em sua estratégia antipopular, chantagista e traiçoeira, é uma antessala do fascismo. Donald Trump, revivendo a arrogância imperialista, a xenofobia e o racismo, é outra vertente do mesmo fenômeno em seu país.

Se Phillip K. Dick nos deixou ansiosos com o futuro, outro escritor fantástico, Franz Kafka, nos alerta com o passado. Em um de seus contos, “A colônia penal”, o comandante da penitenciária, de caráter marcadamente fascista, morre e é enterrado nos fundos de uma taverna. Na lápide sobre a sepultura, uma inscrição é gravada por seus seguidores, que evitam registrar seus nomes, com medo de represálias. Mas o texto na pedra deixa um alerta e uma ameaça: quando os adeptos forem de novo numerosos e fortes, o comandante voltará para reerguer os tempos de glória. E nomes de infâmia serão soprados aos quatro ventos.

Os fascistas de ontem já estão lustrando as inscrições de seus túmulos, sob o olhar admirado dos aprendizes de monstros.