Militarização

Moradores repudiam intervenções militares nas favelas do Rio

Somente no Jacarezinho, na zona norte da cidade, foram sete mortos em nove dias de operação

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Comunidades reforçam campanha #vidasnafavelaimportam para denunciar a violência de estado contra pobres e negros / Vladimir Platonow / Agência Brasil

No Rio de Janeiro, nas últimas semanas, operações policiais e militares foram feitas nas favelas, alterando o cotidiano dos moradores e deixando mortos e feridos. Cerca de sete mil soldados das Forças Armadas desembarcaram em veículos blindados em oito favelas da cidade. Somente no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, foram sete mortos registrados em nove dias de intervenção militar.

Para o estudante Tarcísio Lima, de 22 anos, morador de Manguinhos, uma das favelas que também vivenciou a operação militar, a relação dos moradores com soldados e policiais é muito complicada.

“Eles fazem o papel de capitão do mato no século XXI. Eles não chegam para conversar, já chegam dando tiros. Se você pegar o valor de um projétil de fuzil é mais caro que um caderno. Se a gente tem um país que prefere investir mais em segurança do que em educação a gente falha nos dois pontos porque não temos nenhum deles”, afirma.

Durante as operações militares nas favelas, 64 unidades de ensino municipais foram fechadas e quase 27 mil alunos ficaram sem aulas nos dois turnos. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, foram 41 escolas, 11 creches e 12 Espaços de Desenvolvimento Infantil fechados por uma semana. A moradora de Acari, também na zona norte, Buba Aguiar, de 25 anos, do coletivo Fala Acari, afirma que a militarização das favelas é um projeto do Estado para controle da população pobre e negra.

“Não é à toa que a gente vê hoje o Rio de Janeiro batendo recorde de mais de 26 mil alunos sem aula. Esses desmontes das políticas públicas também são direcionados para atingir a classe mais baixa da população, em sua maioria, o povo negro. O que acontece hoje no Rio não é uma crise em que o estado tem que intervir para conseguir uma solução. Esse discurso da paz e da ordem tem direcionamento. A paz para o asfalto significa a morte e derramamento de sangue do nosso povo”, denuncia.

No primeiro semestre deste ano foram registrados 581 casos de mortes em decorrência de intervenções policiais, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão da Secretaria Estadual de Segurança. Um aumento de 45,3% se comparado ao mesmo período do ano passado. Os dados apontam ainda que até o mês de agosto, 97 policiais foram mortos no estado do Rio.

Edição: Raquel Júnia