Meio ambiente

Agroecologia vai além da produção de alimentos orgânicos, explica dirigente do MST

Francisco Dal Chiavon, o Chicão, destaca que agroecologia muda a relação do ser humano com a natureza

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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O MST mantém cerca de 20 cursos em nível nacional para formar agentes em agroecologia / Divulgação/MST

Os produtos orgânicos vêm ganhando espaços nas prateleiras dos supermercados, lojas on-line e mercearias especializadas. E os debates em torno da qualidade do que comemos é super importante. Mas você sabia que há uma grande diferença entre produtos orgânicos e produtos agroecológicos? O que define o alimento orgânico é o modo de produção, a técnica que envolve todo o processo, que se torna livre de agrotóxicos e fertilizantes químicos. A agroecologia vai além. 

Segundo Francisco Dal Chiavon, o Chicão, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a agroecologia muda completamente a relação do ser humano com a natureza. 

“A produção agroecológica não é somente a técnica de produção. Essa é uma fase. A outra fase, mais importante, é a nossa relação com a natureza e com os outros seres humanos, com tudo o que nos permeia. Há uma ideia equivocada que nós, os humanos, estamos fora da natureza, e nós entendemos que na agroecologia nós fazemos parte da natureza. Neste contexto, a agroecologia assume um papel fundamental de mudança na sociedade. Não basta mudar apenas a técnica de produção. Nós temos que começar a mudar a nossa forma de viver.” 

As experiências agroecológicas enfrentam grandes desafios. Mais do que técnicos, políticos. Chicão aponta que, para mudar o sistema de produção de alimentos, é preciso uma grande reforma fundiária, com distribuição de terras e uma ruptura com o modelo do agronegócio. Ou seja, dar terra para quem quer produzir comida saudável e a preços justos, e não para latifundiários que modificam sementes para ter mais lucro, como é o caso dos transgênicos, além de destruir o meio ambiente e manter relações desiguais com os trabalhadores do campo. 

Apesar dos desafios, trabalhadores rurais já demonstram que agroecologia é possível na prática. É o caso da produção de arroz e leite em assentamentos do MST na região sul brasileira e das mais de cinco mil feiras agroecológicas espalhadas pelo país. 

Além de possível, esse tipo de produção é necessária. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) alertou em abril deste ano um aumento no número de pessoas com fome no mundo desde 2015. Segundo Chicão, a agroecologia tem um papel fundamental de alimentar a humanidade com uma produção livre de venenos e saudável. 

“A agroecologia precisa dar conta de alimentar a humanidade hoje. E ela tem todas as condições pra fazer isso do ponto de vista técnico e político. O que nós precisamos é que a sociedade humana comece a ter a consciência de que essa forma que nós temos de vida é insustentável no planeta Terra.” 

O dirigente do MST conta ainda que hoje são aproximadamente 20 cursos em nível nacional, desde o primeiro grau até o ensino superior, em espaços criados pelo movimento, que visam formar agentes em agroecologia. Para ele é preciso valorizar o conhecimento histórico do camponês, aliado à técnica e à ciência. 

 

Edição: Camila Maciel