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Dona Ção: a resenhista do bairro

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Dona Ção, uma velhinha beirando 90 anos de idade, frágil, com uma carinha de inofensiva que só vendo, diz Mouzar. / Divulgação
O prazer da resenha, conhecida por fofoca, era narrar desvios de comportamento

Numa pequena cidade da Paraíba, uma das pessoas mais temidas não era nenhum homem bom de briga, nenhum matador nem nenhum coroné rico, do tipo mandão, como existe em muitos lugares.

A pessoa mais temida era Dona Ção, uma velhinha beirando 90 anos de idade, frágil, com uma carinha de inofensiva que só vendo. 

Mas era perigosa. Disso ninguém tinha dúvida. Ela sempre tinha alguma coisa pra falar sobre quem quer que seja, mesmo que fosse uma simples insinuação. 

Fazia diariamente o que lá chamavam de resenha, que nada mais era do que falar dos últimos acontecimentos, sem muita preocupação com a verdade. O prazer da resenha, também conhecida como fofoca, era relatar desvios de comportamento dos outros. 

Dona Ção era a principal resenhista do lugar. Sabia tudo de todo mundo. Quer dizer, mais que tudo. Tinha coisas que ela sabia sobre as pessoas que nem elas mesmas sabiam. Tinha uma imaginação fértil.

E o que ela falava, logo se esparramava pela cidade toda. A fofoca ia de boca em boca, e todos ficavam sabendo do que o fulano ou a fulana aprontou.

Falava até do comportamento sexual de todo mundo. Um exemplo: a Alice, que morava perto dela, um dia foi passando em frente a sua casa, com cara de que procurava alguém e a Dona Ção falou:

— Bom dia, Alice. Por que tanta pressa?

— Estou procurando a Socorro — respondeu a Alice.

A velhinha deu um sorriso e falou, insinuando sobre a sexualidade dela:

— Socorro… Moça bonita. Mas já me disseram que ela usa um sapato bem grande…  

Pois é, ninguém estava livre da velhinha. 

Robson, um rapaz que morava bem no centro da cidade, um dia quis testar os conhecimentos da Dona Ção sobre a vida alheia. 

Ele estava sentado num banco na calçada, em frente à sua casa, e chamou a velhinha, que passava pelo meio da rua:

— Se achegue, Dona Ção. Sente aqui comigo e vamos falar um pouco da vida desse povo todo.

Ela andou lépida e fagueira em sua direção, sentou ao lado dele, fez um gesto largo, indicando os dois lados da rua e perguntou: 

— Por onde é que a gente começa? Por lá ou por cá?