Coluna

O sotaque dos pássaros do interior e da cidade grande

Imagem de perfil do Colunista

Ouça a matéria:

"O bem-te-vi do interior canta mais devagar", observa Mouzar / Wikimedia
Em São Paulo, até os bem-te-vis são mais estressados

Um dia desses vi mais uma vez um pica-pau bicando uma árvore da praça do conjunto em que moro, na Vila Madalena, em São Paulo. Fiquei um bom tempo vendo e me divertindo. Acho um privilégio morar num lugar com muitos passarinhos. 

Na praça, nos quintais e nas ruas próximas de onde moro há muitas árvores, boa parte delas frutíferas, então, ali, temos a alegria de ver e ouvir passarinhos dos mais variados.

Tem muito sabiá, bem-te-vi, maritaca, sanhaço. Mas dois deles, eu nunca vi ali, só escuto de vez em quando. São da região do Cerrado e não sei como apareceram na Vila Madalena. Um é a juriti. E tem a rolinha fogo-apagou, que em Minas chamamos de fogo-pagô. Ela tem esse nome por causa do som que emite – “fogo-pagô”, “fogo-pagô”.

Vendo e ouvindo os passarinhos, me lembro de algumas coisas relacionadas a eles. Uma delas é de uma vez que eu estava em Fama, pequena cidade do Sul de Minas, com dois mil habitantes. Fica na beira da represa de Furnas, é um lugar muito bonito. Quando fui lá, gostava de passar as tardes no único restaurante local, na beira da represa, num silêncio absoluto, só vendo a represa e seu entorno, bebericando cerveja e comendo peixe. 

Um dia, muitos passarinhos entraram no restaurante e achei que eles eram muito parecidos com sanhaços, mas eram esverdeados, enquanto os sanhaços paulistanos, meus conhecidos, eram azulados. 

O dono do restaurante confirmou que eram sanhaços mesmo. Então concluí que havia umas diferenças regionais nos passarinhos. 

E lembrando mais algumas coisas, concluí também que o som que emitem pode ter sotaques diferentes. Isso porque em São Paulo, em casa ou na praça, eu ouvia bem-te-vis cantando e o canto deles era bem rapidinho – bem-te-vi-bem-te-vi-bem-te-vi… 

Na minha memória, o canto deles no meu tempo de infância era menos acelerado.

Aí numa tarde, em São Luiz do Paraitinga, conversando com uma amiga, ouvi um bem-te-vi cantando. Comentei:

- Tô confirmando uma ideia… O bem-te-vi do interior canta mais devagar… Em São Paulo é 'bem-te-vi-bem-te-vi-bem-te-vi', apressado. Aqui é 'beeeeemmmm-teeeee-viii'…

E minha amiga respondeu, sorrindo:

- É… em São Paulo, até os bem-te-vis são mais estressados.

Edição: Camila Salmazio