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Censura é falta de tesão

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Protesto contra censura na Ditadura Militar / Reprodução
Brasil periga ficar burro e broxa

Os seguidos episódios de censura e ameaças violentas às manifestações artísticas no país são um sinal de nossa crise de civilização. Não se trata apenas de impedir a livre expressão, o que já seria grave, mas de criar as bases de um ambiente fascista, capaz de fechar o horizonte democrático. A situação se torna ainda mais preocupante pela forte ligação desse movimento com igrejas e grupos fundamentalistas, fazendo da religião um campo de manobra ideológico. Como outro ingrediente desse coquetel regressivo, a repressão à sexualidade ganha destaque, numa estratégia de moralização da política.

Em pouco tempo, o Brasil periga ficar menos interessante, pouco inteligente e mais alienado. E, para completar, desviando a energia sexual criativa para a repressão. Sem graça, triste, burro e broxa. A saudável revolta dos artistas, movimentos sociais e do público tem criado um terreno de recuperação do poder de mobilização, com uma onda crescente de rejeição à censura em vários pontos do país. Além da percepção do atraso estético e reflexivo, está ficando cada vez mais clara a pretensão oportunista de políticos conservadores em se aproveitar dessa histeria demagógica.

Os principais opositores das mostras de artes visuais, peças de teatro, filmes e canções vítimas de tentativa de censura vêm do campo das igrejas e do conservadorismo moral. No que diz respeito às crenças, desvia-se dos objetivos da arte para afirmar os interesses da doutrinação. As religiões existem para promover a redenção, a partir de elementos fundados na fé e na revelação, por meio de ações codificadas historicamente. A arte vai no sentido inverso: seu papel é criar estranhamento, permitir ir além das regras e ampliar o espectro do humano.

Por isso, julgar a criação artística a partir do dogma é uma atitude obscurantista, que confunde propósitos, instrumentos e linguagens. Como habitante do espaço público, a arte dialoga com todos, crentes e não crentes, sem intenção proselitista. Vai a uma exposição, teatro ou cinema quem quer, sabendo de antemão o que pode encontrar. Se há, na verdade, uma invasão de espaços, ela tem que ser creditada às religiões, que agora foram autorizadas a frequentar, em sua versão confessional, os bancos laicos das escolas pública.

O sexo é outro tabu que está sempre presente nos intentos censórios. Inspirado pelas crenças conservadoras e pela ideologia familiar, descrita por Wilhelm Reich há quase 100 anos. O pensador deixou evidentes os vínculos entre a repressão sexual, a família burguesa e a sociedade autoritária. Para ele, a família é uma “fábrica da estrutura ideológica” das sociedades de classe. Trata-se de uma fábrica, portanto nada de definir o grupo familiar como “natural”, o produto mais acabado são pessoas incapazes de pensar e agir por conta própria.

A imposição de medo do sexo é uma das ações mais hipócritas de nosso tempo. Geralmente quem reprime os outros não usa a própria receita em sua vida. Os mesmos combatentes do ensino de sexualidade nas escolas se lançam a campo para impedir que o tema faça parte da vida das pessoas. O que um dia foi equivocada postura cientificista higienista, com seu machismo indisfarçável, hoje é aberta condenação moralista. Voltamos no tempo. Até pessoas peladas em quadros, performances e esculturas se tornaram pornografia.

Sem falar no ambiente de intensa sexualização, essa sim perversa no sentido psicanalítico, que se alimenta na sociedade de consumo, por meio da propaganda. Ao fabricar corpos dóceis e manipuláveis, ajudam a criar consumidores mais vorazes e insatisfeitos. Afora o fato de que são geralmente os próceres do moralismo típico da classe média, inclusive eclesiástico e parlamentar, que detêm o protagonismo em ações ligadas à pornografia, à pedofilia e ao preconceito contra pessoas LGBT.

O mais grave dessa confusão filosófica é que ela vem guarnecida de um movimento orquestrado, que cobra do Estado uma postura de interventor. Sob o falso argumento do respeito à fé e do cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, o que se prega é a censura pura e simples. E o abrandamento do potencial crítico da arte e do pensamento. De um lado, dando ao Estado o papel de promotor de crenças em espaço público; de outro, retirando a autonomia das famílias realmente existentes em nome de uma ideologia familialista autoritária. Nos dois casos, impedindo a liberdade de expressão.

Freud decifrou teoricamente o combate que vai dentro da alma de todas as pessoas. Somos habitados por uma força indomável, o princípio do prazer, que procura realizar nossos desejos mais originários. Como uma espécie de polícia dessa inclinação ao gozo, faz parte da nossa arquitetura psíquica o que ele chamou de princípio de realidade, que reprime o impulso básico para integrá-lo a metas aceitas socialmente. Em linguagem política metafórica, o princípio do prazer seria a democracia e o princípio de realidade estaria mais próximo da tirania. Não é um acaso que as ditaduras gostem tanto de censura e arte oficial.

É claro que os dois lados têm seus méritos e funções. É pelo senso de realidade que o homem transforma impulsos primários, às vezes violentos, em realizações sofisticadas. De outro lado, é por meio da energia sem escalas do prazer que outras manifestações do que chamamos humanidade se realizam, entre elas a arte como atividade livre do espírito. Por isso a repressão sexual tem impacto sobre a qualidade e força da criação estética. É dessa fonte que ela brota. Como escreveu certa vez o poeta Paulo Leminski, ao se referir à colonização do anárquico princípio do prazer pelo convencional princípio de realidade: “Sem sexo, neca de criação”.

Edição: Joana Tavares