TEATRO

Festival de Teatro do Agreste reverencia a ancestralidade africana

FETEAG traz a Caruaru e Recife espetáculos que pautam o respeito às diferenças e o reconhecimento das desigualdades

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Contes Et Legendes Du Bukina Faso, com o Griot François Moïse Bamba, levou histórias de Burkina Faso para a Comunidade do Boi Tira Teima / Geyson Magno/ FETEAG 2017

Provocar novos olhares. Sacudir dentro da gente. Podem ser algumas das funções do Festival de Teatro do Agreste (Feteag). Ansiosa que estava para embarcar de Salvador (BA) rumo a Caruaru (PE), fui criando expectativa nos espetáculos que veria na 27° edição do festival, que já tem 36 anos de (r)existência e traz o tema “Africanidade”. Dizem que se a gente cria expectativa a chance de se decepcionar aumenta. O Feteag mostra o contrário.

Sete horas da noite da quarta-feira (18), a bilheteria do Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife, abriu com um número considerável de pessoas a espera. O espetáculo da África do Sul, Black Off, encenado pela performer e atriz Ntando Cele, abriu os trabalhos. Número de stand-up, performance e um show de rock foram os elementos usados para questionar o modo como as pessoas, especialmente as mulheres negras, africanas são vistas e tratadas pelas pessoas brancas. As provocações foram contundentes e certeiras. Duvido que seja possível não sair inquieta após os 100 minutos de apresentação.

Daí em diante, cada noite, cada contato com atrizes e atores, com suas histórias e reflexões, nos tirou do nosso lugar. A inquietude segue movimentando. A maior parte das apresentações acontecem no Teatro Rui Limeira Rosal, Sesc de Caruaru, cidade na qual o Feteag surge e se mantém. No entanto, Recife recebeu apresentações do dia 18 ao dia 22. Em Caruaru, outros lugares como a sede do Boi Tira Teima, o Auto do Moura e casas selecionadas também receberam atividades.



Na manhã da quarta (25), conversei com Fábio Pascoal, um dos curadores e produtor executivo do festival. Sobre a escolha do tema da mostra profissional, ele conta que tem retomado o Feteag temático desde 2010. “A gente tem feito um recorte específico para cada edição do festival para poder aprofundar as questões. Elas são o fio condutor pra toda curadoria tanto da mostra profissional quanto das oficinas que a gente traz. O objetivo é exatamente aprofundar a questão, trazer mais discussão, dar mais visibilidade pra esses assuntos, que às vezes são pouco discutidos ou questionados”, considera.

O tema é potente e a curadoria precisa. O que resultou na minha- e de quem assistiu- surpresa e felicidade (além da tantos outros sentimentos) a cada peça. Sobre a curadoria, que divide com Mariane Consentino, Fábio observa: “na realidade a gente foi procurar espetáculos que pudessem de alguma maneira revelar olhares”.

Quando pergunto sobre o fato de dos 12 espetáculos da mostra profissional seis serem solos de mulheres negras, Fábio reflete: “eu acho que também foi um acontecimento. A gente vê que existem muitos solos femininos, na realidade. Poucos solos masculinos, de negros masculinos. Pouquíssimos. Solos femininos são mais fortes e tem em maior quantidade. Mas eu acho que tem muito a ver com a questão também da afirmação da mulher, desse lugar de fala da mulher que está tão em evidência”.

Essa conversa aconteceu minutos antes de começar mais um espetáculo da mostra estudantil, que traz grupos de escolas livres e universidades e dialoga diretamente com as crianças e jovens que estudam na rede municipal de Caruaru. Nessa quarta (25), aconteceu “Isadora, um espetáculo de plágio combinação”, do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Pernambuco. No palco, cores, luzes e muita dança animaram toda a plateia, que terminou dançando junto com as atrizes e atores no palco. A conversa feita logo após cada espetáculo da mostra estudantil expande ainda mais as possibilidades trazidas pelo teatro.

O Feteag segue até o domingo (30), quando acontece o último espetáculo, “Salinas- A Última Vértebra”, no Sesc Caruaru. O texto de boas-vindas do festival pontua que vivemos tempos difíceis no Brasil e que é momento propício para construirmos novas relações, nas quais o respeito seja uma prática. A reverência feita a nossa ancestralidade é respiro e lembrança da nossa força e beleza enquanto povo.

Edição: Catarina de Angola