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"Com dor ou sem dor?": o dia em que arranquei um dente no único consultório da cidade

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"Tem gente que parece uma dor de dente", brinca Mouzar Benedito / Pixabay
Ele perguntou o preço e o dentista falou: "Sem dor é cinco. Com dor é dez"

Qual é a expressão que você usa para dizer que alguém é muito chato?

Na minha terra, no Sul de Minas, era comum ouvir alguém dizer para um chato: “Ô, íngua!”. Outra expressão era "dor de dente": “o fulano é uma dor de dente”, a gente dizia. 

Realmente, íngua e dor de dente incomodam muito. Assim como uma pessoa chata.

Mas para dor de dente, hoje em dia, tem remédio: tem dentista em quase tudo quanto é lugar. Tá certo que é preciso ter dinheiro para pagar o dentista, mas resolve. Para gente chata nem dinheiro resolve.

Nos meus tempos de criança não existiam tantos dentistas, pois as faculdades de odontologia eram poucas. E muitos dos dentistas que trabalhavam em certos lugares não eram formados, eram dentistas práticos. Como, aliás, foi Tiradentes, dois séculos antes.

Ah, quando eu era criança já existia anestesia, mas eu ouvia umas histórias de um pouco antes, quando obturações e extrações eram feitas sem esse luxo. Eram com dor mesmo. 

Por isso, muita gente tinha medo de dentistas. Até adultos. 

Uma vez ouvi um sujeito contar uma historinha que, se for mentira – e acho que é – não é minha. É dele.

Era um homem já velho. Contou que anos antes estava com um dente dolorido, e precisava extrair. Ou arrancar, como se dizia. Mas não tinha coragem de ir ao dentista prático que era o único da cidade. 

Um dia, ficou sabendo que numa cidade vizinha apareceu um dentista muito bom. E resolver ir lá para “arrancar” o dente. 

Segundo disse, o dentista perguntou se ele queria que a extração do dente fosse com dor ou sem dor. Ele perguntou o preço e o dentista falou:

— Sem dor é cinco. Com dor é dez. 

Ele pensou que o dentista estava enganado e perguntou:

— Não é o contrário? Sem dor não é mais caro?

— Não — disse o dentista. — Com dor é mais caro.

— Claro que eu quis sem dor, né? ­— contou o velho, achando que o dentista ia lhe aplicar uma anestesia. 

Perguntei pra ele se foi sem dor mesmo. E ele falou:

— Quá! Nada, sô! Mandou eu abrir a boca e foi logo metendo o boticão no dente, sem anestesia nem nada!

— E aí? — perguntei. 

Ele respondeu:

— Comecei a gritar de dor e o desgramado me falou: “Não grita, que com dor é dez”. 

Edição: Camila Salmazio