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A arte de dividir o banheiro e a intimidade nos cortiços brasileiros

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Em um cortiço na zona leste de São Paulo, lavanderia e banheiro dividem espaço no quintal / Agência USP
Imagine pessoas com dor de barriga esperando a fila andar. Dá briga

Andando pela região central de São Paulo, vendo casarões burgueses que viraram cortiços em que moram dezenas de famílias, eu me lembrei de uma coisa que aparentemente não tem nada a ver com isso: o hábito de ir ao banheiro.

Há muito tempo imagino uma coisa que existia, e felizmente não existe mais, era encarar como vergonhoso ter certas necessidades. Acho que isso foi trazido pelos europeus, pois os índios não tinham banheiro, mas encaravam as necessidades humanas com naturalidade, viviam de bem com a natureza e com as necessidades do organismo humano.

Nos prédios antigos de muitas cidades europeias, os banheiros são poucos e coletivos, um por andar ou às vezes nem isso, alguns têm um só banheiro no andar térreo. Hoje em dia há o entendimento de que ir ao banheiro é uma coisa normal e boa, que o ambiente do banheiro tem que ser saudável e agradável. 

Mas, no entendimento de certas construtoras, isso só vale para casas de classe média para cima, pois quando fazem habitações populares parecem achar que banheiro de pobre tem que ser uma coisa precária.

No Brasil também – afinal adquirimos alguns hábitos europeus – os banheiros eram escassos. Bares de cidades pequenas raramente tinham banheiro, e quando tinham, parecia um chiqueiro. Em muitos lugares ainda é assim. 

Na minha cidade, quando eu era adolescente, só um bar tinha banheiro. A gente achava um luxo! 

Na cidade toda, poucas casas tinham a chamada “privada patente”, essa de vaso sanitário, dentro de casa. O que havia era uma casinha com uma fossa, no fundo do quintal. Na zona rural, em muitas casas, nem isso tinha. A moita de bananeiras era o mais tradicional banheiro rural.

Mas, voltando ao que eu falei no começo, por que me lembrei disso tudo vendo casarões que viraram cortiços? É que conheci cortiços em que moram centenas de pessoas e tinha só dois banheiros. 

E isso acabava dando muitas encrencas, pois em São Paulo não tem a alternativa das moitas de bananeiras.

Imagine pessoas com dor de barriga esperando a fila andar. Dá briga. Há muitos anos, fazendo uma matéria para um jornal, perguntei a uma líder de um movimento de moradores de cortiço qual era seu maior sonho.

Ela respondeu com os olhos brilhando:

– Morar numa casa que tenha um banheiro só para a minha família.

Edição: Camila Salmazio