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Onde tem Globo tem mentira

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O curioso é que o padrão global estabeleceu um jogo complexo que funde acabamento técnico e indigência intelectual
O curioso é que o padrão global estabeleceu um jogo complexo que funde acabamento técnico e indigência intelectual - Reprodução
Globo ajudou a rebaixar a esfera pública e a construir narrativas falsas

A Rede Globo de Televisão, cabeça de um negócio midiático bilionário, é hoje a grande reserva ideológica da desigualdade brasileira. Sua capacidade de concentrar a atenção de milhões de brasileiros se construiu em torno de uma audiência garantida por um mercado defendido do risco da competição e do controle público. E não é de hoje. Apoiadora da ditadura militar e de todos os movimentos antipopulares desde então, a empresa se confunde com o próprio projeto de Estado da burguesia nacional e internacional.

O curioso é que o padrão global estabeleceu um jogo complexo que funde acabamento técnico e indigência intelectual. Tudo que não é politicamente orientado é estético demais. Em todos os campos em que atua, o estilo da emissora emite seus sinais. Em seus primórdios, essa aparente contradição entre forma e conteúdo não se estabelecia com clareza. A programação podia, sob censura, ser nitidamente reacionária e colaboracionista, como no programa Amaral Neto, o repórter, que ajudou a vender a ideia de Brasil grande durante os anos de chumbo.

A evolução da linguagem televisiva se fez, no entanto, sempre com a astúcia de esconder sua inspiração sob a capa de um padrão de qualidade, mesmo que questionável. O melhor exemplo foram as telenovelas, que estabeleceram um estilo de dramaturgia histérico e alienado, que foi sendo recheado com o tempo com pitadas de contradição, acompanhando a reboque a sociedade. Como pretensa arena pública das questões comportamentais, as novelas hoje exibem um apanhado mal cozido de marketing social e conflitos éticos, com traços de modernidade tolerante. Sem questionar as estruturas, se consola em debater temas sociais como se fossem conflitos individuais.

No jornalismo não é preciso muito esforço para identificar o padrão mais definido de seu noticiário: a consagração do pensamento único. Sem abertura à complexidade do mundo e das ideias, evoca sempre uma noção de ordem garantida por valores inquestionáveis, o mercado à frente. Não há pluralidade de visões e o tom didático das questões políticas e econômicas traduz o que deveria ser pauta jornalística como nítida direção partidária. É fácil traçar o mapa que orienta o projeto de sociedade que emana de seus programas e noticiários.

A Globo, embora se apresente como exemplo de empresa privada, no que toca ao coração de seu negócio se comporta como uma empresa estatal e pública. Garantida por concessão perpétua, sem qualquer sombra de controle e financiada por verbas públicas, sempre confundiu seus interesses com o interesse do Estado e, especialmente, dos governos que ajudou a eleger. Nessa toada, fez mau jornalismo, ajudou a cimentar momentos de unidade nacional vicária e ufanista, contribuiu para demonizar todas as formas de contestação. E afrontou a vontade popular quando foi preciso.

Sem perder a ternura, sempre foi capaz de defender o núcleo duro do sistema, jogando as contradições inevitáveis para o campo do imaginário. A mesma empresa que ajudou a consolidar uma das mais espetaculares concentrações de riqueza do mundo com seu cimento ideológico competente (ou pelo menos avassalador e sem contestação), se carpe a cada ano com a mesmice trapalhona do Criança Esperança. Patrimônio da hipocrisia, o programa arrecada e distribui infinitamente menos do que gasta de seu próprio valor em termos de tempo dispendido, caso fosse traduzido em tabelas de publicidade da casa. Não vale quanto pesa. É, para completar sua tarefa de marketing-fofura, escudado por símiles ainda mais disformes, como programas de auditório que banalizam a miséria e criam estratégias compensatórias humilhantes para reforçar a submissão.

Na linha das artes, a empresa ajudou a diluir a variedade nacional de expressões de criatividade, até mesmo pelo equivocado papel de unificar as diferenças em uma linha de mediocridade única. Perdeu-se a riqueza das múltiplas formas de manifestação artística, em nome do mercado estandartizado e rasteiro. Não se trata de juízo de valor, mas exatamente da falta de abertura ao juízo estético e à riqueza do valor da diversidade. Onde sobressai apenas uma forma anódina, tendo como único fiador o sucesso de público, acaba-se por confundir o resultado com a causa. E é bom não esquecer que a empresa não se esgota na apresentação dos produtos culturais, mas percorre com seus tentáculos comerciais todos os elos das cadeias dos diferentes negócios, dos shows aos filmes, dos livros aos discos.

A participação como protagonista no golpe não é novidade, já que foi ostensiva em todas as suas fases. A Globo ajudou a rebaixar a esfera pública, a disseminar mentiras, a construir narrativas falsas, a defender pautas reacionárias, a alimentar a revolta moralista. E, o que é mais grave, se tornou instrumento do poder judicial e policial, contribuindo ativamente com processos de linchamento moral de pessoas, grupos e partidos. Além disso, entregou seu maior ativo, a credibilidade, para ajudar na condução de propósitos que precisavam de apoio popular que não provinha dos caminhos democráticos. Para isso trocou a reportagem – um patrimônio do jornalismo como forma de conhecimento – pelo vazamento.

A história da Globo é o triunfo da infâmia. Foi capaz de destruir muitas paixões legítimas, como o carnaval, a música popular, o cinema reduzido a comédias ridículas, o jornalismo como ferramenta de civilização. Mas o poço parece não ter fundo. Agora meteram as patas no esporte. Os esquemas de propina para compra de transmissões são objeto de investigação internacional, executivos da empresa com as mãos sujas estão sendo largados no caminho, presidentes de federações que sempre foram parceiros celebrados hoje são vendidos como criminosos.

Pode não ser novidade num cenário onde há tantos anos pontifica Galvão Bueno e que, por isso mesmo, já parecia meio derrotado. Mas é triste. A situação do país não está nada boa, mas sem uma honesta partida de futebol fica ainda pior. Por isso a faixa da torcida do Atlético Mineiro no jogo do último domingo contra o Grêmio, com os dizeres: “Globo pagou propina no futebol”, foi um alento para todas as torcidas.

Já passou da hora de mudar o jogo e tirar a Globo de campo.

Edição: Frederico Santana