DEMOCRATIZAÇÃO

Fraudes envolvendo instituições de futebol e de comunicação são reveladas

Globo é delatada por pagamento de propinas para obter direitos de transmissão de torneios sul-americanos

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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Torcida do Atlético Mineiro em manifestação contra a Globo, no dia 3 de dezembro, no Estádio Independência (MG). / Mídia Ninja

Em um efeito dominó, caem todas as peças, uma a uma, do jogo corrupto da entidade máxima do futebol, a FIFA. Um grande esquema de fraude começou a ser desmontado quando, ainda em 2015, 18 pessoas e 02 empresas foram indiciadas, incluindo a prisão de sete dirigentes da entidade. Entre eles, o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Dentre as acusações estavam fraude eletrônica (uso de tecnologia da informação para cometer fraude), extorsão e lavagem de dinheiro.

Em novembro, mais um escândalo abalou as estruturas das instituições futebolísticas. No dia 14/11, o ex-presidente da empresa de eventos esportivos Torneos y Competencias (TyC), o argentino Alejandro Burzaco, afirmou em delação premiada à justiça estadunidense que a Rede Globo pagou propinas para conseguir direitos de transmissão de torneios de futebol ligados à Conmebol, como a Libertadores e a Copa América. Além da empresa brasileira, Burzaco citou algumas das principais redes televisivas dos Estados Unidos, do México, da Espanha e da Argentina. Segundo o delator argentino, o então diretor do departamento esportivo da Globo, Marcelo Campos Pinto, que deixou a empresa ainda em 2015, era quem negociava os direitos de transmissão com pagamento da propina. Burzaco ainda incluiu em seu depoimento a participação de Ricardo Teixeira e José Maria Marin, ex-mandatários da CBF, e Marco Polo Del Nero, atual presidente da mesma, no esquema de corrupção.

Duas semanas após a delação de Burzaco, no dia 30, seu principal funcionário, Eladio Rodríguez, também citou a Globo em seu depoimento. Rodríguez afirmou que uma offshore da TyC foi aberta na Holanda com o objetivo de receber pagamentos de grupos de comunicação, entre eles a Globo. Segundo ele, após as propinas serem depositadas na conta da empresa holandesa, os valores eram repassados aos dirigentes das federações. Assim como seu antigo patrão, Rodríguez também citou Teixeira, Marin e Del Nero em seu depoimento. A TyC possuía planilhas contábeis paralelas, nas quais aparece o nome da Globo quatro vezes e sempre associada à repasses referentes à transmissão de torneios sul-americanos que somam mais de R$ 40 milhões. Nessas planilhas, os presidentes da CBF estavam identificados com o codinome “Brasileiro”.

O caso ainda está em processo de investigação, mas, a revelação de Burzaco desenha, de maneira nítida, como os oligopólios de comunicação no mundo estão intimamente ligados aos negócios lucrativos e pouco republicanos que envolvem o mundo esportivo. No Brasil, há anos, nenhuma outra rede televisiva consegue competir com a Globo nas transmissões dos jogos dos principais torneios esportivos no país. Um monopólio que, negociado diretamente com a CBF, permite que uma única empresa de comunicação engorde suas contas através de contratos publicitários que superam em muito o valor do repasse que ela faz aos clubes brasileiros. Segundo levantamento da organização Intervozes, apenas durante o Campeonato Brasileiro de 2017 a Globo faturou cerca de R$ 1,7 mi com publicidade.

Em grande medida, as vantagens da Globo na disputa pelos direitos de transmissão dos jogos no Brasil têm relação direta como o próprio monopólio exercido pela empresa na comunicação em todas as suas esferas de difusão.

A delação de Burzaco deixa sinais concretos, não apenas sobre o modo pouco republicano como o futebol é organizado, mas, também revela como qualquer pretensão de democratizar o futebol implica necessariamente em constituir uma agenda de democratização da própria mídia no Brasil.

Edição: Elen Carvalho