COMÉRCIO

Quitanda resiste há 70 anos na Zona Norte do Recife

Tradição, qualidade e honestidade ajudam comércio a atravessar gerações no Vasco da Gama

Brasil de Fato | Recife (PE)

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"Abraçamos esse lugar, esse trabalho e pronto. Só temos que agradecer a Deus. É o que meu pai mais agradecia" / Vinícius Sobreira

O nome pode variar, mas não há no Vasco da Gama quem não conheça a quitanda que fica na esquina da entrada do Córrego do Botijão, no bairro da zona norte do Recife. É a “Mercearia de Gilberto”, “Mercadinho dos Morenos”, “Os meninos de Seu Antônio” ou alguma referência à antiga Compare, nome do antigo estabelecimento localizada naquela mesma casa e pertencente à mesma família. Sem nome ou placa, o local tem clientes fiéis que ajudam a quitanda a atravessar gerações e se manter há cerca de 70 anos no dia a dia do bairro.

O estabelecimento, que com cerca de 40 metros quadrados, tem a maior parte do espaço ocupada por expositores e prateleiras de madeira quase tão antigas quanto o local. As frutas, verduras e legumes tomam a vista para onde quer que o cliente olhe. E se não prestar atenção, pode bater com a cabeça numa palma de bananas ou num abacaxi pendurados. No balcão do caixa o cliente também pode escolher temperos. Mas o carro-chefe da casa são mesmo as frutas. “Temos muitas frutas boas. É o nosso principal produto”, diz sem titubear Valdenir Soares, 50 anos, um dos herdeiros e proprietários.

Seu Antônio trabalhou no local até próximo da morte. Desde sempre colocou os filhos para trabalhar com ele, que vendia milho cozido do lado de fora do comércio, de domingo a domingo. Ainda hoje o comércio abre sem dia de descanso. De segunda a sábado, o expediente é das 6h da manhã até as 20h. No domingo o dia começa mais cedo: abrem às 4h da manhã e seguem até o meio-dia ou 2h da tarde. O trabalho é dividido entre sete pessoas: o irmão mais velho, Gilberto, além de Givaldo, Valdemir e Valdenir, o entrevistado, que é o mais jovem dos nove irmãos. Se somam ainda dois sobrinhos e um filho seu.

Ele conta que tudo o que a família construiu foi através daquele hortifruti. “Abraçamos esse lugar, esse trabalho e pronto. Tudo o que temos foi tirado daqui. Só temos que agradecer a Deus. É o que meu pai mais agradecia”, afirma Valdenir. O pai, conta ele, ensinou que o mais importante para o sucesso do trabalho é a honestidade. “É trabalhar certo. E só com mercadoria boa. A gente não tem nem calculadora. Só a da balança. Fazemos tudo na caneta e o povo confia”, comemora o comerciante.

São princípios que, acredita ele, estão por trás do sucesso e persistência do estabelecimento, que ele estima ter 70 anos. “Tem gente que liga pedindo para separar as mercadorias. Eu que escolho e confiro o peso. Só passam para buscar. Temos relação de confiança”, garante. “O pessoal vem da Torre, de Casa Forte, do Brejo para comprar aqui com a gente. Tem uma senhora que vem de Olinda, outra de Pau Amarelo [na cidade de Paulista] para fazer feira no Deskontão, mas sempre compram frutas, verduras e legumes aqui”, diz Valdenir.

Mas a maior parte dos clientes são mesmo moradores do Vasco da Gama, como dona Marli Laura da Silva, 65 anos. “Compro aqui desde a época do pai deles. Aqui no 'Mercadinho dos Morenos' o preço é melhor. Eles são muito prestativos, agradáveis para as pessoas. São muito bons. Aqui é o melhor lugar que tem para comprar”, avalia Dona Marli. Ela costuma ir ao comércio uma ou duas vezes por semana, comprar legumes e, principalmente, frutas para fazer picolé. “Faço picolé natural na minha casa, aqui próximo à Igreja do Córrego do Botijão. É só R$ 1, depois vá lá”, aproveita para informar.

Perguntado sobre as mudanças no cenário econômico do bairro, Valdenir avalia que a partir de 2003, com o Bolsa Família, a qualidade de vida do bairro evoluiu e isso foi positivo para os comerciantes. Mas a volta do desemprego tem lhe levado a usar táticas para não perder clientes. “Tem gente que não tem tempo ou não tem renda para escolher muito e comprar no peso. Então eu separo pacotinhos de R$1 que ficam do lado de fora. Qualquer mercadoria aqui fora é R$1”. A ideia beneficia as duas partes. “Isso tem ajudado a gente. Se fosse depender só do que compram do lado de dentro, eu estaria mais apertado. Temos que aprender a trabalhar com a crise. E estou aprendendo”.

Edição: Monyse Ravena