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Seu Zeca, o maior mentiroso da cidade

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Seu Zeca, o mentiroso, disse que pescou um lambari de três quilos, conta Mouzar / Commons Wikimedia
Toda cidade pequena do Brasil tem um sujeito que é considerado o maior mentiroso

Toda cidade pequena do Brasil tem um sujeito que é considerado o maior mentiroso. Acaba sendo uma espécie de mentiroso oficial. Tudo quanto é mentira grosseira que aparece entra na conta dele. 

Às vezes alguém inventa uma mentira e diz que foi o tal mentiroso que contou. 

Na minha terra, tinha alguns mentirosos, mas o maior deles era o Zeca. Muitas mentiras atribuídas a ele foram inventadas por outros, mas ele também nunca negou fogo. Fazia por merecer a fama. Eu contei várias histórias dele no meu primeiro livro de causos, e repito uma delas aqui.

A barbearia do meu pai era frequentada por ele e por um monte de homens que não tinham o que fazer. Era uma espécie de ponto de encontro de desocupados. 

Às vezes tinha mais de dez pessoas ali, mas só dois ou três esperavam a vez de cortar o cabelo ou fazer a barba. Os demais estavam lá para conversar e, comumente, falar da vida alheia.

Um dia, a barbearia cheia, chegou o Zeca. O pessoal já se assanhou: lá vem mentira das boas. Um sujeito puxou assunto com ele:

— Ô, Zeca, cê tá sumido…

Ele contou:

— Passei uns dias na roça, pescando… Foi lá no açude do Necreto.

— Pegou muitos peixes? — perguntou o outro.

— De quantidade foi pouca, só alguns lambaris. Mas cada baita lambari! Um deles pesava três quilos.

Ficou aquele clima… Quanto pesa um lambari? Quinze gramas? Vinte gramas? E o Zeca vem com a história de lambari de três quilos. O Zeca não aceitava que o desmentissem, mas um freguês arriscou:

— Ô, Zeca, lambari de três quilos?…

Antes que ele ficasse bravo, o Zé Luís, outro cara que tinha fama de mentiroso, sapecou:

— Pode ser… Pode ser… Aquele açude é muito esquisito. Um dia eu estava pescando nele, fisgou alguma coisa e eu pensei: é um peixe bem grande, porque estava difícil tirar o baita. Fiz bastante força e puxei, e sabe o que saiu do rio?

— Hum… hum…  — responderam.

— Um lampião aceso!

Aí o Zeca ficou bravo mesmo:

— Cê tá me gozando, Zé Luís? Onde já se viu tirar um lampião aceso do fundo do açude!

O Zé Luís deu um sorrisinho maroto e falou:

— Diminui um pouco o seu lambari que eu apago o meu lampião.

Edição: Camila Salmazio