Agroecologia urbana

E se espaços vazios nas cidades virassem hortas?

Uma iniciativa em Vitória ressignificou um local abandonado produzindo alimentos orgânicos

colaboração especial para o Brasil de Fato | Vitória (ES)

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Horta Quintal na Cidade, centro de Vitória, capital do Espírito Santo / Vitor Taveira

Ressignificar as relações das pessoas com os alimentos, com o espaço urbano e com seus vizinhos. Essa tem sido uma das contribuições das hortas urbanas comunitárias que vêm surgindo pelas cidades brasileiras. Um desses casos é o da horta Quintal na Cidade, centro de Vitória, capital do Espírito Santo.

“O local onde hoje funciona horta comunitária quintal na cidade era uma rua sem calçamento, sem infraestrutura Uma rua que não era cuidada de forma regular pela prefeitura de Vitória. Aí por conta de morarmos próximo, moramos nessa rua, a gente teve a ideia de juntar um grupo e fazer o cuidado cotidiano desse espaço”, conta Duda Bimbatto, uma das fundadoras do projeto. O primeiro mutirão aconteceu em março de 2016. Em setembro, depois de uma capacitação da Secretaria Municipal de Saúde, o grupo ganhou novas adesões. E em novembro do mesmo ano, o Quintal na Cidade foi apresentado oficialmente à sociedade com um evento cultural.

Hoje, a horta produz quase 200 espécies, incluindo frutas, hortaliças, tubérculos, plantas medicinais, aromáticas e ornamentais. Também tem sido feito o resgate de plantas alimentícias não-convencionais como ora-pro-nobis, beldroega, bertalha, taioba e araruta, espécies que têm sido pouco utilizadas no consumo humano.

“Não utilizamos nenhum tipo de agroquímico no controle de pragas e doenças, só inseticidas caseiros, experiências de agricultores tipo caldas e extratos naturais como extrato de fumo, de pimenta, alho, folhas de mamona, água de sabão, etc. Estamos iniciando também processo de adubação verde com leguminosas, que são plantas recuperadoras do solo, muito utilizado pelos produtores orgânicos”, explica  o agrônomo Dauro Bricio Junior, também integrante do Quintal na Cidade, que considera que o trabalho não é muito diferente das hortas rurais, pois a exigência para o cuidado é a mesma.

Ele destaca que a rotatividade de cultivos é fundamental para o manejo orgânico proposto pela horta. O grupo que cuida do espaço se organiza em escalas para as regas e cuidados durante a semana. Os trabalhos coletivos, como mutirões, acontecem nos finais de semana. “Os cuidados são mais ou menos intensivos, porém não temos muito tempo para nos dedicar aos trabalhos da horta, é uma adaptação que às vezes precisamos fazer por esse ritmo de trabalho de quem vive em cidade grande”.

Segundo Duda Bimbato, o projeto que começou de maneira despretensiosa acabou tendo uma repercussão imensa. O local acabou virando um ponto de encontro para atividades culturais e ecológicas, como shows, oficinas, bazares e visitas monitoradas para instituições educativas e comunidade em geral. Algumas dessas atividades também contribuem com o aspecto econômico “Com forma de sustentação da horta, de a gente custear os equipamentos que a gente utiliza, as ferramentas, as sementes, os adubos orgânicos, a gente organiza atividades, bazares, eventos culturais, tudo isso é forma de a gente conseguir recursos para manter a horta, tendo em vista que é um projeto autogestionado.

A gente não tem vinculação direta com a prefeitura ou com empresas. Então, realmente é o grupo que está envolvido é que busca recursos para manter o projeto”. Em novembro do ano passado, a água que era utilizada na horta, proveniente de uma torneira de água pública que havia na rua, foi cortado pela Cesan, empresa estadual responsável pelo fornecimento. Pese os pedidos à empresa e à prefeitura, passados dois meses o problema não foi solucionado e os moradores decidiram pedir uma ligação particular, cujos custos terão que ser divididos entre os hortelões.

Os integrantes da Horta Comunitária Quintal na Cidade se alegram com a repercussão do projeto. "Temos como resultado o estímulo ao convívio comunitário, trabalhos coletivos, educação ambiental. O projeto só tem a crescer e pode incentivar outras comunidades a desenvolver projetos semelhantes para ocupar a cidade de uma forma saudável, comunitária, cultural e humanizada", considera Duda.

Dauro sonha em ver hortas implantadas na periferia e nos morros da cidade, que poderia contribuir para as famílias de baixa renda. “Na minha visão, as hortas urbanas cumprem um importante, um papel de unir,de agregar as pessoas que tem um interesses em comum. Vejo a horta urbana como um papel aglutinador de pessoas, centralizador de atividades culturais e comunitárias. Tem esse fato também, a possibilidade de gerar economia nas famílias, evitar gastos e diminuir a despesa da família na feira no final de semana. É uma coisa que dá pra conciliar com a melhoria na qualidade da alimentação”.

Toda produção é dividida entre as pessoas que participam e colaboram com a horta e também com vizinhos que apoiam eventualmente o projeto.

 

 

 

 

 

 

 

 

Edição: Anelize Moreira