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É hora da esquerda lá

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"Defender Lula é um dever imposto pela conjuntura, para retificar o sistema judicial apodrecido e para retomar políticas que mudaram o país" / Ricardo Stuckert
Lula, com todas as forças, em nome da democracia brasileira

A direita acredita que já derrotou Lula. O mais expressivo exemplo foi a rodada de pesquisas do Datafolha, que naturalizou a eleição sem o candidato do PT. O resultado, como se pôde ver, foi a constatação da resiliência do petista e o risco real de um pleito sem legitimidade. A vitória seria comemorada por um candidato que ficaria perto de 70% de rejeição, dado o altíssimo índice de abstenção e votos nulos identificados nessa hipótese.

Mais que um retorno ao tempo pré-segundo turno, fundado na necessidade de maioria absoluta para garantia da governabilidade, a eleição sem Lula consagraria uma democracia sem três de suas bases mais importantes: seria eleição sem perspectiva de alternância de poder, sem autêntica representação plural e sem povo. Mesmo para os padrões liberais mais estritos, o ambiente seria de estado não democrático.

Lula será candidato e fará campanha, mesmo que tenha sua candidatura impedida lá na frente. Neste caso, caberia substituir o candidato e apostar na transferência de votos, ou bancar a democracia socialista a partir de um processo de ruptura popular. Manter a candidatura de Lula é um acerto histórico. Mas é preciso estar atento para a situação que levou até esse impasse: Lula é o maior nome da esquerda brasileira, mas não pode ser maior que a esquerda brasileira.

Nos dois casos – eleição pelas regras do jogo, ainda que corrompido em sua origem; e a aposta na força da mobilização popular para alterar o rumo político –  parece haver um consenso perigoso, que une a esquerda e a direita. Os dois lados do espectro político parecem se movimentar por meio de certezas tácitas, que alternam presunção e cálculo político. A própria entronização do centro abstrato, como um valor moral, e não um programa de classe regressivo, é um exemplo disso.

Quem acha que a direita descartou Bolsonaro e corre atrás de um nome que recomponha sua visão de democracia oligárquica e sem povo, se engana. É claro que nulidades como Alckmin e Huck são mais palatáveis e dóceis, mas se o caso for derrotar Lula e não surgir um nome eleitoralmente viável, o fascista vai servir. O trabalho, como nos EUA sob Trump, seria anular suas asneiras em costumes e direitos humanos, em nome de um projeto de continuidade no campo do entreguismo econômico e de destruição do Estado social.

Defender Lula é um dever imposto pela conjuntura, seja para retificar o sistema judicial apodrecido, seja para retomar as políticas que mudaram a cara do Brasil, seja para trazer de volta uma política de massas que permita trazer a democracia para o leito da participação popular. É ainda uma honra à sua trajetória de maior liderança popular de história do país. No entanto, é também momento de levar adiante dois propósitos políticos inadiáveis.

O primeiro é cerrar fileiras contra todas as possibilidades de avanço do atraso, em franco curso no país, a começar pela reforma da previdência. Essa tarefa é urgente e indelegável. Sem mobilização popular, será mais uma derrota vergonhosa. A eleição pode nesse momento tomar grande parte do horizonte político, mas não pode significar o abandono das pautas fundamentais para o povo.

O segundo desafio é armar-se de realismo político, estabelecendo um programa de união das esquerdas, atento ao calendário eleitoral, a um programa emancipatório mínimo e a uma estratégia de luta articulada. Não se pode aceitar a ideia de campeão moral nas eleições deste ano. É preciso vencer com uma candidatura que represente os interesses populares, sob o risco de exterminar de vez a democracia no país.

Lula lá, com todas as forças, em nome da democracia brasileira. Mas com o trabalho imediato e consequente pela construção da esquerda lá, em nome dos mesmos valores.

Edição: Joana Tavares