Coluna

Ronaldinho, direto das ruazinhas de barro

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Certa vez me deparei com uma cena cinematográfica: era o Ronaldinho “surfando” o bonde, de pé, seguido por uma viatura da Guarda Municipal / Wilcker Morais
Era um sobrevivente sagaz que carregava consigo a essência da rua

Eu tive um amigo, Ronaldinho C2P2, inimigo público número 1, programado pra morrer. Negro de nascença, escuro de sol, dentes separados, saltados pra fora, semicerrados, a pele cheia de marcas de espinhas, esquálido, pixava pelos muros da cidade “Correria Constante Por Pedra” (C2P2).

Era viciado em crack desde muito cedo, pobre louco, filho sem pai, do fundão da periferia, instituiu um jargão nas ruas da cidade; “aqui é favelinha, ruazinha de barro”, dizia ele logo antes de abrir um sorriso anestésico no rosto.

Certo dia, eu saindo do Shopping Estação, onde era balconista da sorveteria, fui pegar o biarticulado e me deparei com uma cena cinematográfica: era o Ronaldinho “surfando” o bonde, de pé, bem louco, e uma viatura da Guarda Municipal atrás esperando o ônibus parar para prendê-lo. Mas ele era craque da rua, deu um pelé nos polícia e fugiu pela praça Eufrásio Correia.

Sua mãe era do Candomblé. Ele usava uma guia, falava pouco, ria bastante, dependia do crack. Tinha minha idade, na época uns 17 anos.

Nosso último rolê juntos foi na praia. Íamos só com o dinheiro da ida, sem ter como voltar, sem casa, sem comida. Nos virávamos. Uns cuidavam de carro, outros vendiam água e cerveja na praia, outros praticavam pequenos delitos.

Sempre tive muitos amigos, então alguém sempre me acolhia. Dessa vez não foi diferente. Uma amiga ofereceu uma cama pra mim em Caiobá, perguntei de imediato se eu não poderia levá-lo junto, pois, como se diz na rua “tá junto, tá junto”. Ela, sabendo da fama do Ronaldinho, se negou. Agradeci, dormi mais um dia na praça com meus amigos.

No outro dia chega ele com uns 10 pontos na cabeça, tentou furtar uma prancha de surf, o segurança do condomínio deu com uma barra de ferro na cabeça dele, achou que o tinha matado, abandonou o corpo num terreno próximo. Ele foi encontrado, atendido. Pontos. Curativo. Pronto, estava novo.

Chegou na praça como se nada tivesse acontecido, deitou, dormiu, acordou uma hora depois, sentou ao meu lado e ficamos ali, sem falar uma palavra sequer, observando as pessoas passando, tomando sorvete, correndo, bebendo, desviando da gente. Nenhuma palavra foi dita, mas foi um dos mais intensos diálogos que já tive.

Uns meses depois, já em Curitiba, todos na rua estavam sabendo que o Ronaldinho tava “queimado”, que a polícia disse que não ia mais prender ele, que da próxima vez iam resolver o problema.

Dito e feito. Foi pego roubando toca cds no Centro, amanheceu morto num terreno perto da Uniandrade, no Santa Quitéria.

Ronaldinho, o terror do sistema, indômito, sobrevivente, sagaz, carregava consigo a essência da rua. A polícia sabia que com ele era sempre tudo ou nada, por isso resolveram o problema de uma vez.

Sempre que vejo um menor bem louco no centro, pronto pra fazer alguma fita, penso que poderia ser ele. Vejo na bolinha do zóio e me dou conta que sim, é ele, Ronaldinho, presente!

Cronista da quebrada. Advogado, militante do movimento hip-hop e morador de Curitiba. Mais um sobrevivente da cena do loco.

Edição: Ednubia Ghisi