Lucimar de Lourdes: campo, trabalho e luta contra a violência

Diretora da Fetraf, ela revela fases do passado: “várias vezes eu apanhei e pedi desculpas a ele por ter batido em mim"

Por Joana Tavares, de Belo Horizonte (MG)

Lucimar tem os cabelos encaracolados, tingidos de vermelho acobreado, tem um sorriso enorme e uma disposição de dar inveja. Chegou em Belo Horizonte, capital mineira, para ficar três dias e já estava no 13º quando deu esta entrevista, entre uma reunião e outra.

Na capital, participou da formação para o Congresso do Povo, reuniões da Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Brasil (Fetraf), da Secretaria de Mulheres da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outras várias.

Naquela noite ia pegar o ônibus de volta pra Simonésia, no Leste de Minas Gerais – ou “cantinho da roça”, como ela chama –, mas sem muito tempo para desarrumar a mochila porque o 8 de março é o tipo de luta que ela não perde.

Mesmo na correria, Lucimar encontra tempo para compartilhar sua história porque acredita que outras mulheres podem se identificar e, assim como ela, perceber que podemos tudo. “Nunca me importei de contar o que se passou comigo, de partilhar nos movimentos, porque quero que as pessoas saibam e as mulheres vejam que a gente pode. Nós podemos tudo. Não tem limite pra nós. Lugar nosso é onde a gente quiser”, resume.

A solidariedade entre mulheres, a parceria do sindicato e movimentos, a força das filhas foram fundamentais para Lucimar aprender a nomear o que viveu em casa por mais de 15 anos. Ela sabia que não era normal, mas demorou para aprender a chamar aquilo de violência.

“Fui descobrir que tudo aquilo que eu passava – de não querer fazer sexo e ter que fazer, de tomar um empurrão do nada, um tapa na cara, de ser humilhada na frente dos outros, tinha um nome. E as minhas meninas passavam isso junto. Era um homem dominando três mulheres”, frisa.

O casamento aos 18 anos, o trabalho na terra

“Na mesma casa em que eu nasci, minha mãe mora até hoje. Ela cavou o barranco e fez a casa no local. Lá na roça”, conta. Aos 18 anos, ela se casou com o primeiro namorado. Poucos meses depois, sofreu um aborto espontâneo e, sangrando muito, foi pela primeira vez na vida a um hospital. “E lá, como eu era uma pessoa que não tinha acesso à cidade, eles viram uma pessoa simples e começaram a, sinceramente, me torturar, como se eu fosse culpada pelo aborto”, lembra. Um médico disse que o motivo da perda do feto foi anemia, fraqueza no corpo, resultado de muitas privações e fome na infância e adolescência.

Voltou pra casa, que ficava em uma comunidade a 24 quilômetros da cidade, e enfrentou uma depressão. “Das brabas”, diz. “Cheguei num estágio que a cabeça comandava como um botão de computador. Eu pensava que ia passar mal se tomasse água e aí passava mal mesmo e ia parar no hospital. Fiquei no processo um tempo, ouvia vozes, via coisas”, conta.

Depois de enxergar o que ela chama de fundo de poço, foi arrumando forças para sair. Mãe de duas meninas e trabalhadora meeira, começou a se envolver na comunidade e entrou para a associação de moradores. Ajudou a construir a igreja, passou de casa em casa e foi percebendo que ali era, na verdade, um remanescente de quilombo. “Pelo histórico, pelo formato das casas, pelas relações de parentesco, pela localização de difícil acesso, vi que era mesmo um quilombo e entrei na luta para que seja reconhecido como tal”, diz.

A calça branca e o sindicato

Apesar de ter estudado formalmente até a quarta série – “naquela época era assim: aguentou o peso da enxada, a comida é prioridade. Tive que trocar o lápis pela enxada” – ela sempre era escolhida para relatora nos trabalhos de grupo da igreja e se destacava nos debates. Um dia, vestiu uma calça branca e escreveu atrás “Tô nem aí”. Alguém do sindicato dos trabalhadores rurais estava presente e viu um potencial crítico nela. Convidada para entrar na diretoria seguinte, Lucimar ficou animada e discutiu o assunto com o marido.

A princípio, ele gostou da ideia. Mas como ela não estava em dia com a mensalidade do sindicato, precisou trabalhar bastante na panha do café para juntar o que devia. “E eu consegui, e ele achava que eu não ia conseguir. E ficou me pedindo o dinheiro, brigando comigo, falando que eu ia dar dinheiro pros outros, e aquela coisa toda”.

Ela enfrentou a briga, entrou para o sindicato e dali em diante foram vários movimentos, muita formação política e viagens. Uma delas, em 2010, marcou sua vida para sempre. “Aprendi a dar um nome pra tudo que eu vivia quando fizemos uma marcha de mulheres de Campinas até São Paulo, durante dez dias, andamos 116 km. Todos os debates falavam das instâncias da violência, e eu fui entendendo. Pensei: ‘peraí: então eu fui violentada até agora. O que eu estou passando até agora foi violência’”, expõe.

Mesmo antes de conhecer o marido, inclusive. Criança, ela precisava obedecer aos três irmãos homens e lavar suas costas quando – todos – voltavam do trabalho da roça. “E não tinha ninguém para lavar as minhas. E nós tínhamos trabalhado o mesmo tanto, o dia todo, no mesmo lugar”, destaca.

Depois da marcha, com muito material na bolsa, Lucimar tentou explicar para o marido o que acontecia. Mas não teve jeito, ele não mudava, e ela decidiu se separar.

Uma casa muito engraçada

Assim ela define o cômodo para o qual se mudou com as filhas. “Era um paiol do meu irmão, não tinha janela, não tinha banheiro, energia, nada. Passava enxurrada no meio. Mas eu falava para minhas filhas: ‘nós ainda estamos no lucro. Saímos de uma vida de violência e agora ninguém pode fazer nada com nós’”.

As duas meninas – que hoje são, nas palavras de Lucimar “hiper, mega feministas” – deram toda a força pra mãe, e reconstruíram a vida nesse novo lar. O primeiro feijão cozinhado lá foi comemorado – uma refeição sem lágrimas. “Muitas vezes acontecia de a gente estar comendo e ele começar a humilhar e aquela coisa toda. Então elas iam comendo e chorando em cima do prato. Então comiam a própria lágrima”.

Ao respirar sem medo e viver em paz, Lucimar às vezes se pergunta por que demorou tanto. Mas pontua: “A violência começa primeiro na cabeça, ela fica toda dominada. Você já escutou tanta coisa, já fizeram uma lavagem tão grande na sua cabeça que você tem vergonha de apanhar e chega um momento em que acha que é culpada por aquilo. Várias vezes eu apanhei e pedi desculpas a ele por ter batido em mim”.

Agora Lucimar enxerga a violência como uma construção, feita no dia a dia do relacionamento. “Ela não é uma explosão que acontece. Ela é construída, todo santo dia. E a pessoa vai tomando sua força. A violência começa com uma base muito sólida, que é o ‘eu te amo’, ‘você é o amor da minha vida’”, reflete.

Por isso, Lucimar indica que ninguém pressione ou julgue uma mulher que não consegue denunciar. Pelo contrário, a solidariedade e apoio são fundamentais.

“Quem tem um papel muito importante na questão da violência contra as mulheres é quem assiste. Porque essa pessoa pode denunciar. Quem está dentro não vai conseguir. Nem todo mundo vai saber o que falar. Nem todas as mulheres vão conseguir chegar numa delegacia e falar: ‘vim aqui porque eu apanhei’. Porque a primeira pergunta que vão fazer é: ‘o que você fez pra ele te bater?’. Você vai ser atendida por homens. Homens militares formados para ser brutos, formados para ver as mulheres como seres inferiores”, ela diz, engasgada.

Hoje participante ativa da Fetraf, da CUT, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e outros, Lucimar ainda tem medo de dormir no escuro e tem muitos pesadelos. Mas mesmo assim enfrenta a dor de recontar a história e se sustenta na certeza que partilhando a vida e participando de espaços coletivos todas as mulheres podem se libertar dos casulos construídos na violência e descobrir que têm forças para serem o que quiserem.