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João Doria pretende fechar 108 AMAs em São Paulo

Segundo gestor aparelhos de saúde serão absorvidos pelas Unidades Básicas de Saúde, as UBSs; médico critica a ação

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Tucano irá concorrer ao governo do Estado de SP / Fernando Pereira / SECOM-PMSP

O prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), anunciou na semana passada o fechamento de 108 AMAs, as Assistências Médicas Ambulatoriais. Segundo a prefeitura, as AMAs serão absorvidas pelas Unidades Básicas de Saúde, UBSs. As AMAs, no entanto, são unidades de pronto atendimento, que recebem casos de pouca complexidade. Já as UBSs necessitam de agendamento de consulta e funcionam como centro médico. 

O Brasil de Fato ouviu a aposentada Maria de Lourdes Bezerra, que gostaria de saber quando será o fechamento e como isso afeta a vida dos paulistanos e paulistanas.

"Meu nome é Maria de Lourdes Bezerra, moro em Osasco, e não gostei desta notícia, de que vão fechar 108 AMAs. Porque nós somos idosos, eu sempre vou nas AMAs, inclusive pego remédio e elas ajudam muito as pessoas pobres, porque os postos de saúde estão uma vergonha. Quando vai ser esse fechamento?"

Stephan Sperling, que compõe a Rede de Médicos e Médicas Populares, responde à aposentada e fala sobre o retrocesso com o fechamento das unidades.

"Olá, meu nome é Stephan, sou médico de família e comunidade, membro da Rede Nacional da Rede de Médicas e Médicos Populares e do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde. Em relação à sua pergunta, Maria de Lourdes, sobre a data de fechamento das Unidades de AMAs, nós ainda não temos, com precisão, um plano de trabalho de quando isto ocorrerá. Porém, nos preocupa muito o projeto em torno do fechamento das AMAs, porque, da forma com ele vem sendo pensando, pode significar muito mais um retrocesso para o atendimento da população paulistana do que de fato um avanço. 

Eu acredito que um apelo popular muito grande que esses serviços de saúde possuem é a capacidade de oferecer acesso no momento em que as pessoas apresentam alguma queixa. Principalmente porque, em São Paulo, nós temos duas realidades muito perversas: primeiro, uma baixa cobertura em atenção primária no sentido de número de serviços. O número de UBS, Unidades Básicas de Saúde, que nós temos é muito baixo para dar conta de atender todo o território que nós temos. Segundo, o modelo de acesso dessas unidades de saúde é muito mal estruturado. Nós temos um modelo de acesso que não privilegia as necessidades de saúde das pessoas, privilegia apenas agenda.

Neste sentido, a responsabilidade da Secretaria Municipal de Saúde tem que ser de, na ponta do lápis, mostrar que, com o fechamento das AMAs, o número de UBSs vai aumentar, o número de equipes de estratégia de saúde da família também vai aumentar, junto com contratação de médicos e enfermeiros de família e comunidade especializados e de bons agentes comunitários.

Ou seja, de que estamos de fato mudando um modelo de atenção primária para privilegiar as necessidades de saúde das pessoas. Se a Secretaria Municipal de Saúde não conseguir comprovar isso, de que a gente vai aumentar o cuidado do território, aumentar a cobertura, universalizar a estratégia de saúde da família — que é algo que de fato não é colocado pela Secretaria, já que as falas do secretário Wilson Pollara frequentemente vão no sentido de focalizar a atenção só para aqueles que são 'SUS dependentes' — a gente vai interpretar o fechamento das AMA como um grande retrocesso, fazendo com que as pessoas não tenham cobertura e não consigam acessar os serviços de saúde quando tenham uma necessidade, uma queixa, uma demanda. 

Edição: Camila Salmazio