História

Ameaçados, perseguidos, difamados: três presidentes que foram vítimas de golpes

Trajetórias de Getúlio, Juscelino e Jango foram marcadas por conflitos com militares e grande mídia

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

,
Da esquerda para a direita: Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek e João Goulart / Reprodução

No 54º aniversário do Golpe de 1964, o Brasil de Fato recorda a implacável perseguição dos golpistas a três presidentes eleitos pelo voto popular. Controversos em suas medidas, eles tiveram em comum a encarniçada oposição da grande mídia, dos militares e dos principais partidos de direita no Brasil.

Um atentado para derrubar Getúlio

Após governar por 15 anos seguidos, o presidente que assinou a CLT teve que renunciar ao cargo quando estava prestes a sofrer um golpe militar, em outubro de 1945. Getúlio Vargas rumou para o exílio em sua terra natal, São Borja (RS), de onde retornou para se recandidatar à presidência em 1950. Venceu o pleito democraticamente, mas não completou o segundo mandato no Palácio do Catete, antiga sede do governo federal, no Rio de Janeiro. Desde a posse, enfrentou dura oposição da Aeronáutica, da grande imprensa e de parcelas do empresariado brasileiro, tacitamente apoiados pelos EUA. No início de 1954, seu ministro do trabalho, João Goulart, concedeu aumento de 100% no salário mínimo, o que atiçou a fúria de seus inimigos.

No dia 5 de agosto, a mando de opositores, aconteceu um atentado a tiros em frente à residência do inimigo figadal de Getúlio, o jornalista Carlos Lacerda. O major Rubens Florentino Vaz, da Força Aérea Brasileira (FAB), foi fatalmente atingido e a oposição culpou os seguranças do presidente. Veículos da grande mídia, como o jornal O Globo, a TV Record e o jornal Tribuna da Imprensa, davam manchetes diárias reforçando a tese de que a culpa era do Catete. No dia 22 de agosto, 19 generais assinaram um manifesto exigindo a renúncia do presidente. Dois dias depois, Getúlio suicidou-se com um tiro no peito e deixou uma carta na qual dizia: “A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos, numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa”.

JK e o apartamento em Ipanema

Eleito democraticamente em 1955, o mineiro Juscelino Kubistchek teve dificuldades para assumir a Presidência. Desde novembro daquele ano, o partido de Carlos Lacerda, a União Democrática Nacional (UDN), deu início a uma campanha na mídia e na Justiça para que JK não assumisse, chegando a pregar o golpe militar. Depois, no início de seu governo, oficiais da Aeronáutica ensaiaram sua deposição, que foi desmantelada pela ação do General Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra no governo JK.

Em 1964, então senador, Juscelino era franco favorito em uma possível eleição presidencial no ano seguinte, mas teve seus direitos políticos cassados pelo golpe militar. A principal acusação contra ele era de ser proprietário de um apartamento na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, onde pagava aluguel para seu ex-ministro, o empresário Sebastião Pais de Almeida. Segundo o inquérito policial instaurado contra JK, Pais de Almeida seria apenas um laranja, pois o ex-presidente teria recebido o apartamento indevidamente da empresa que construiu o prédio, a mesma que tocou uma obra pública no governo Kubitschek. A imprensa tratou Juscelino como ladrão e deu inúmeras manchetes acusatórias sobre o caso, que depois foi arquivado por falta de provas.

Em 1976, ainda na ditadura, JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, faleceram após o carro em que viajavam se chocar com um ônibus, na rodovia Presidente Dutra, quilômetro 165. Em 2017, o relatório final da Comissão da Verdade de Minas Gerais apontou que "é plausível, provável e possível que as mortes tenham ocorrido devido a um atentado político".

Jango e o golpe

João Goulart foi ministro de Getúlio e vice de Juscelino. Assumiu a presidência do Brasil em 1961, após renúncia do titular, Jânio Quadros, enfrentando uma tentativa da oposição de implantar o parlamentarismo no Brasil, que retiraria poderes do presidente. O parlamentarismo foi rejeitado pela população, em plebiscito de 1962. Jango fez um governo instável, sofrendo oposição encarniçada no Congresso, na mídia e entre grupos conservadores na sociedade.

No dia 13 de março de 1964, o presidente assinou um decreto prevendo a desapropriação de terras improdutivas para fazer reforma agrária. Em comício na Central do Brasil, Jango também anunciou um conjunto de medidas, conhecidas como Reformas de Base, que tinham como meta enfrentar gargalos importantes no desenvolvimento do Brasil. Enfurecidos, setores da oposição saíram às ruas para protestar em São Paulo, no dia 19, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. As medidas, segundo eles, seriam uma tentativa de instaurar o comunismo no país.

Na madrugada do dia 1º de abril de 1964, Jango foi derrubado por um golpe militar, que teve suporte do governo dos Estados Unidos. A maior parte da imprensa brasileira cobriu o golpe euforicamente, como se fosse uma “revolução para moralizar o Brasil”. Embora Jango estivesse em território nacional, o Congresso Nacional declarou vaga a presidência da República. No dia 10 de abril, o presidente teve seus direitos políticos cassados. Exilado na Argentina, faleceu em 1976, mesmo ano de JK, aparentemente vítima de ataque cardíaco. Porém, em 2008, o ex-agente do serviço de inteligência uruguaio, Mario Neira Barreiro, disse ao jornal Folha de São Paulo que Jango foi envenenado, a mando do delegado Sérgio Fleury, chefe do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Fleury teria cumprido ordens do ditador Ernesto Geisel, que governou o Brasil entre 1974 e 1979.

Edição: Joana Tavares