Copa do Mundo

Doze fatos sobre Lev Yashin, o goleiro comunista símbolo da Copa do Mundo 2018

Pegador de pênaltis, o soviético filiado ao partido revolucionou a posição de goleiro

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O uniforme completamente na cor preta lhe rendeu o apelido de Aranha Negra / Fotos na matéria: FIFA e reproduções da internet

A Copa do Mundo FIFA 2018, a ser realizada na Rússia entre junho e julho deste ano, traz em seu pôster uma figura lendária do futebol mundial, mas pouco conhecida pelas gerações mais jovens. Desenhada pelo artista Igor Gurovich, a arte traz a imagem de Lev Ivanovich Yashin, considerado o maior goleiro do século 20 e maior futebolista russo de todos os tempos.

O pôster é inspirado no estilo construtivista russo, corrente artística e estética do início do século 20, desenvolvida principalmente na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), nação que Yashin defendeu em quatro Copas. Mas quem foi Lev Yashin? O Brasil de Fato apresenta para você.

1. Da fábrica aos gramados

Nascido em Moscou no dia 22 de outubro de 1923, na ainda recente União Soviética, começou a trabalhar na adolescência numa fábrica de ferramentas. Ele era goleiro de hóquei no gelo do time da fábrica, mas aos 14 anos decidiu se experimentar nos campos de futebol e gostou.

2. Início da carreira

Em 1949, aos 25 anos, passou a integrar o elenco do Dínamo de Moscou, clube pelo qual jogaria toda a carreira. Mas o início não foi fácil e, após algumas más atuações, chegou a voltar para o gelo e integrar a equipe de hóquei do Dínamo. Pesquisando em livros e artigos científicos sobre a história do futebol soviético, o jornalista e mestre em Políticas Públicas Emanuel Leite Jr diz que a fase no gelo não durou. “Ele quase deixou de ser goleiro de futebol, trocando por outro esporte também muito popular na Rússia, o hóquei. Mas logo retornou e se tornou a lenda que é”, diz Emanuel.

3. Revolucionou a posição de goleiro

Yashin se destacou também por inovar na sua posição. Na época ele era um dos raros guarda-redes que não se contentava em ficar debaixo da barra. Ele saía para interceptar cruzamentos, corria para fechar o ângulo dos atacantes que entravam na grande área, se lançava sobre a bola nos pés dos adversários antes que eles pudessem chutá-la, enquanto boa parte dos atletas de sua posição mal saíam da pequena área.

O goleiro de 1,89m foi, para os padrões de jogo do período, como um “goleiro-líbero” e, por isso, muitos dos que o viram jogar o comparam com o arqueiro Neuer, que defende o Bayern de Munique e a seleção da Alemanha. Há quem diga que o que o alemão faz hoje, Yashin já fazia nas décadas de 1950 e 1960. Mas a mudança de postura do guarda-redes não foi invenção do soviético. Ele se inspirou no goleiro búlgaro Apostol Sokolov, que atuou nas décadas de 1940 e 1950 e realizou uma “excursão” na URSS em 1949.

 

4. Um monstro dos pênaltis

Os números do goleiro soviético nas penalidades máximas também são surpreendentes. Foram nada menos que 150 pênaltis defendidos durante a carreira. Boa parte das defesas garantiu que Yashin passasse a partida sem ter suas redes balançadas, o que colaborou para o número de 270 jogos na carreira sem sofrer gols. Uma famosa frase de Yashin faz referência ao cosmonauta russo Yuri Gagarin, primeiro homem a sair o planeta Terra. “A alegria de ver Yuri Gagarin no espaço só é superada pela alegria de uma boa defesa de pênalti”. Certa vez, perguntado sobre sua frieza sobre as traves, Lev atribuiu sua tranquilidade ao “ritual” que fazia antes de todos os jogos: fumava um cigarro “para acalmar os nervos” e bebia uma dose de vodca “para tonificar os músculos”.

5. Um único clube: 22 anos no Dínamo

O soviético defendeu por toda a carreira o Dínamo de Moscou, clube das polícias e forças de segurança da URSS . Até 1950 o clube era a principal força no futebol, tendo levantado 5 títulos dos 12 campeonatos nacionais disputados até então (o CSKA Moscou levou outras 4 taças, enquanto o Spartak Moscou ficou com 3). Yashin, que chegou ao clube em 1949, estreou em 1950, mas só se firmou como titular em 1953, conquistando a Copa da URSS já em sua primeira temporada.

A partir da década de 1950, com Yashin titular, o Dínamo conquistou mais 4 títulos da Liga Soviética (1955, 1957, 1959 e 1963), mas o clube disputava o posto de principal clube soviético contra o Spartak Moscou. Posteriormente, nos anos 1960, o Dínamo Moscou fica para trás, com o crescimento do ucraniano Dínamo de Kiev. Com Yashin, o clube de Moscou conquistou, além dos 4 títulos da liga, mais 3 Copas da URSS (1953, 1967 e 1970). Foram 22 anos defendendo as cores do Dínamo.

Após a aposentadoria de Yashin, o clube só levantou mais 2 títulos nacionais: os campeonatos soviéticos de 1963 e 1976. Com o fim da URSS, os maiores campeões nacionais eram o Dínamo Kiev (13 títulos), o Spartak Moscou (12 títulos), o Dínamo Moscou (11 títulos) e o CSKA Moscou (7 títulos). Mas desde o fim da URSS o Dínamo foi o único grande clube russo que ainda não foi campeão, enquanto o Spartak levantou mais 10 títulos e o CSKA mais 6. O Dínamo Kiev, que passou a jogar o campeonato ucraniano, conquistou mais 15 campeonatos nacionais.

O Campeonato Soviético de Futebol unia clubes das nações que compunham a URSS: no continente europeu a  Rússia, parte da Bielorússia, Ucrânia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão; e na Ásia o Turcomenistão, Kazaquistão, Usbequistão, Kirguistão e Tajiquistão. Não é fácil ter tantos detalhes da carreira de Yashin, porque seu auge foi durante o período da Guerra Fria, em que o mundo estava dividido politicamente entre aliados dos Estados Unidos e aliados da URSS. E os vídeos do campeonato soviético não chegavam ao ocidente (por falta de interesse do ocidente ou por falta de abertura da URSS).

6. O Aranha Negra da União Soviética

Defendendo a URSS, Yashin vestia um uniforme completamente negro que lhe renderia o apelido de Aranha Negra, na Europa; e de Pantera Negra, na América do Sul. Atuou pela seleção em 78 jogos durante 16 anos (de 1954 a 1970). Nos dias de sol, era comum que ele usasse uma boina. Foi em sua geração que o país conseguiu seus maiores feitos no futebol. Após participação discreta nos Jogos Olímpicos de 1952, Yashin liderou seu país na conquista do ouro das Olimpíadas de 1956 e também levantou a taça da primeira Eurocopa da história, em 1960. Lev defendeu a URSS nas boas campanhas das Euros seguintes: prata em 1964 e 4º lugar em 1968.

Após a aposentadoria do goleiro, o “Exército Vermelho” ainda viria a se destacar nas 3 Euros seguintes, com prata em 1972 e bronzes em 1976 e 1980. Nas Olimpíadas foram 3 bronzes consecutivos: 1972, 1976 e 1980). Nos Jogos de 1976, na disputa pelo bronze, a URSS bateu o Brasil do lateral-esquerdo Júnior. Os Soviéticos voltariam ao topo nas Olimpíadas de 1988, a última disputada enquanto URSS: medalha de ouro conquistada numa virada por 2x1 sobre o Brasil de Taffarel, Romário e Bebeto.

7. Irregular em Copas do Mundo

A União Soviética nunca alcançou uma final de Copa do Mundo. Seu melhor resultado foi o 4º lugar em 1966, com a seleção liderada por Yashin. Também com o goleiro a URSS chegou às quartas de final em 1958, 1962 e, com Lev já no banco, perto de se aposentar, o país chegou novamente às quartas em 1970.

E foi devido uma atuação na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, que Yashin passou a ser conhecido no mundo ocidental. Na disputa das quartas de final diante de uma poderosa Áustria (bronze na Copa anterior), Lev fechou o gol e chegou a defender um pênalti sem dar rebote, garantindo a vitória por 2x0. Mas nas semifinais os donos da casa eliminaram a URSS por 2x0.

Na Copa de 1962, no Chile, Yashin falhou nos dois gols do Chile, pelas quartas de final, sendo o principal responsável pela derrota por 2x1 diante dos anfitriões. Nesta Copa o soviético também tomou aquele que é o único gol olímpico em Copas até hoje, anotado pelo colombiano Marcos Coll, no empate em 4x4 ainda na primeira fase.

O goleiro soviético voltaria a retomar sua reputação na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Após uma primeira fase perfeita, a URSS superou por 2x1 uma ameaçadora Hungria (que dias antes havia aplicado 3x1 sobre o Brasil de Garrincha, Tostão e Jairzinho). Com Yashin muito exigido, mas seguro, esta talvez tenha sido uma das melhores partidas do goleiro numa Copa do Mundo. Nas semifinais a URSS acabou derrotada por 2x1 pela Alemanha Ocidental de Franz Beckenbauer. Há ainda quem diga que nesta Copa de 1966, na disputa pelo 3º lugar, o mítico artilheiro português Eusébio teria se desculpado a Yashin após anotar um gol de pênalti na vitória por 2x1 de Portugal sobre a URSS (foto acima).

Na Copa do Mundo de 1970, no México, Yashin já aos 40 anos e no banco de reservas assistiu sua URSS cair novamente nas quartas de finais, desta vez diante do Uruguai: 1x0 na prorrogação. Após se aposentar do manto negro, Lev passou a integrar a Comissão Técnica da seleção. Mas o país passou 12 anos sem sequer se classificar para uma Copa.

8. Yashin contra o Brasil

O goleiro soviético enfrentou a Seleção Brasileira uma única vez em sua carreira. Foi na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Já na primeira fase da competição, o Brasil e a URSS jogaram pelo Grupo 4, que contava ainda com Inglaterra e Áustria. O Brasil de Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, Zagallo, Pelé e Garrincha estreou atropelando a Áustria por 3x0, enquanto a URSS não passou do  2x2 diante da Inglaterra. Na segunda rodada foi a vez do Brasil ficar no empate contra os ingleses, 0x0, enquanto os soviéticos fizeram 2x0 na Áustria.

Na terceira e decisiva rodada, o Brasil dominou a URSS, que não conseguiu conter a Canarinho e perdeu por 2x0, gols de Vavá aos 3 do 1º tempo e aos 32 do 2º tempo. Destaques ainda para Garrincha e Didi. Esta foi a primeira copa da dupla Pelé e Garrincha, que traria a primeira Copa do Mundo para o Brasil. Neste mundial a Canarinho anotou 5 gols contra a respeitada França e contra a anfitriã Suécia, de modo que os 2 gols sofridos por Yashin são considerados mérito do goleiro.

9. Melhor goleiro do Século 20

Em 1963 Lev Yashin tornou-se o único goleiro (e segue único até hoje) a conquistar o prêmio Bola de Ouro, concedido pela Revista France Football ao melhor atleta do ano no futebol europeu (para muitos, melhor atleta do mundo). E apesar de nunca ter sido eleito o melhor goleiro de uma edição de Copa do Mundo, em 1994 Lev Yashin passou a ser o nome da Luva de Ouro, prêmio de melhor goleiro da Copa do Mundo. A homenagem durou 4 edições do mundial, até 2006.

Em 1998 uma eleição realizada pela FIFA elegeu o soviético o melhor goleiro de todo o século 20. Em 2004 foi eleito o melhor futebolista russo da história. Por isso, afirma o jornalista e pesquisador Emanuel Leite Jr, “é impossível falar de futebol na União Soviética sem citar Yashin”. “É impossível falar de futebol na União Soviética e não citar Yashin. Qualquer livro ou artigo sobre a história do futebol no país traz muitas referências a Yashin, principalmente os que são do período em que ele atuou. Ele simboliza o futebol na URSS. O maior goleiro do Século 20”.

10. Comunista e símbolo do Partido

Após se aposentar, em 1971, com 42 anos de idade, Yashin passou a trabalhar como professor de educação física e treinar equipes juvenis do Dínamo Moscou, além de integrar a comissão técnica da Seleção Soviética. Chegou a ser vice-presidente da Federação Soviética de Futebol.

Ídolo do esporte nacional, o goleiro soviético era também filiado ao Partido Comunista da União Soviética. Sempre simpático, Yashin era tido como exemplo de carisma a ser seguido pelas lideranças do partido. Já em 1967, próximo ao fim de sua carreira, foi premiado com a Ordem de Lênin, maior condecoração concedida pela União Soviética. Entre 1930 e 1991 foram agraciados com a medalha os militares, civis e instituições consideradas heróis da URSS. O primeiro homem a ir ao espaço sideral, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin; e o revolucionário e presidente cubano Fidel Castro são exemplos de personalidades reconhecidas com a Ordem de Lênin.

Apesar disso, Yashin parece não ter se envolvido tão diretamente com a política de seu país. É o que acredita Emanuel Leite Jr. “Como ícone extremamente popular na URSS, ele tinha boas relações com dirigentes do Partido. Ele jogou a carreira no clube da KGB, a polícia secreta da URSS. O triundo no esporte era uma forma de mostrar o triunfo do sistema soviético. Então ele era muito utilizado como símbolo, exemplo a ser seguido pela sociedade. Mas não encontrei referências sobre seu grau de envolvimento direto com a política”, diz Emanuel.

11. Yashin no Brasil

Durante suas férias de verão, no meio do ano de 1965, o soviético resolveu conhecer o Brasil. Escolheu ficar no Rio de Janeiro. Durante as manhãs, curtia as praias do litoral carioca, mas às tardes ia aos treinos do Flamengo, manter a forma e treinar os goleiros rubro-negros. Lev Yashin declarou certa vez ser admirador do goleiro brasileiro Gylmar, campeão das Copas do Mundo de 1958 e 1962, além de defender as cores de Santos e Corinthians.

12. Da vida para a história

Com pouco mais de 60 anos, Lev já sofria com problemas circulatórios. Em 1984 precisou amputar uma perna. Apenas dois anos depois sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Devido um câncer de estômago, que provocou outras doenças e complicações, Yashin faleceu em 20 de março de 1990, um ano antes da desintegração do país que defendera durante toda a vida. “Não tem ninguém que seja maior que ele, ninguém simboliza mais”, diz Leite Jr, ao explicar a escolha de Yashin para estampar o livro “A História do Futebol na União Soviética”, de sua autoria. “E​ acho que por isso ele foi o escolhido para o cartaz da Copa, porque é o grande ídolo do futebol russo”.

Edição: Monyse Ravena