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A hora e vez de fazer política

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"A tríade jurídico-parlamentar-midiática que encabeçou o golpe se acha protagonista, mas é só executora de um projeto que está acima dela" / Geraldo Magela/Agência Senado
O impeachment foi um projeto do capital

A expressão “fazer política” pode parecer ambígua. Afinal, fazer o quê? Durante muito tempo esse chamamento significou a disputa de projetos, ocupação de espaços de poder, combate de ideais, defesa de valores. Fazer política era uma forma de engajamento nas questões que diziam respeito à vida da sociedade. Hoje, a frase parece ter outro sentido: a política precisa ser feita. Em outras palavras, numa sociedade despolitizada é preciso refazer a via da política como a única saída civilizada. Política ou barbárie.

A política não está mais presente, chega mesmo a ser considerada um estorvo. O golpe em curso foi uma espécie de agente exterminador da política, pelo menos em seu sentido mais construtivo. Como definiu o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, “no Brasil nem os liberais morrem de amor pela democracia, nem os empresários são apaixonados pelo livre mercado”. Podemos completar: nem os políticos gostam de política, apenas do que ela pode dar eles. 

É só tomar como ponto de partida os agentes que chegaram ao poder com a saída de Dilma Rousseff, a partir da tríade que encabeçou o golpe: jurídico-parlamentar-midiática. Os três genes do novo parasita que coloniza o poder se acham protagonistas, quando na realidade são apenas executores de um projeto que está além e acima deles. O impeachment não foi uma ação política nem dos partidos, nem do sistema legal e menos ainda da imprensa. Foi um projeto do capital, em sua expressão mais reativa e concentradora.

Os três patetas apenas executaram o roteiro e se acham, até hoje, centro vitorioso da conspiração. Temer se consolidou como a maior nulidade da política brasileira contemporânea, imprestável até para seus patrões, que atiçam com o poder enquanto ameaçam com o opróbrio. Tribunais e juízes se tornaram cenários e personagens de farsas. A imprensa atravessa uma crise de legitimidade que é abrandada por publicidade oficial, adiamento da regulação do setor e ataques histéricos às redes sociais.

Na seara parlamentar, o PMDB, hoje MDB, não perdeu apenas uma letra, perdeu a razão de ser partido. Temer, em sua insignificância, selou o destino de uma agremiação que nunca teve outro projeto que o de siderar em torno de interesses particulares. Não há uma ideologia peemedebista, há um método, um protocolo de aproximação das oportunidades de usufruto do poder.

No âmbito do Judiciário, o que ficou patente foi o processo acelerado de perda de relevância daquele poder em nome de valores exteriores à justiça. A corporação judicial, incluída aí as instâncias de controle e repressão, extraviaram-se de suas missões em nome da defesa de interesses e visões de mundo que se configuram no campo da ideologia. Não julgam ou agem de acordo com a lei, mas interpretam a lei de acordo com seus julgamentos. Cármen Lúcia e Sérgio Moro são os extremos dessa atitude. A primeira pela carência o segundo pelo excesso. Cármen mimetiza a fraqueza moral; Moro, o arbítrio iluminado.

Em relação à mídia, o que se vê é transgressão máxima de seu fundamento na sociedade democrática – defesa da liberdade de expressão e do poder iluminista dos fatos – em favor da vindicação de interesses explícitos. Assim como o Judiciário, a imprensa brasileira se tornou um partido político. Tem bandeiras próprias em matéria de direitos, política e economia. Defende o mercado pós-liberal como valor universal; relativiza a expansão de direitos; criminaliza a participação popular. É conservadora em economia, regressiva em direitos e reacionária em política.

O que essa situação indica é que a política precisa ser feita. Não há saída fora dela. No entanto, a dura tarefa dada aos democratas de verdade é dupla. É preciso resistir ao ataque à política clássica, defendendo as instituições, criticando os desvios, atacando com todos os instrumentos legais e de pressão popular o descarrilhar do trem da história.

Ao mesmo tempo, é preciso ocupar a trincheira das propostas setoriais, sob o risco de se ver desmanchar as conquistas que fazem parte do patrimônio da sociedade, como ocorreu com a legislação trabalhista e com o esgarçamento das redes de defesa a liberdade de pensamento, em favor do conservadorismo fundamentalista. Os recentes ataques ao SUS são prova de que os abutres rondam de perto e sem dar trégua.

Defender o campo do exercício da política convencional e fincar trincheiras na defesa da expansão de direitos são atitudes aparentemente distintas, mas que constituem o contínuo da política pela qual vale a pena lutar.

O que talvez seja novo, ou pelo menos relativamente original, é a emergência de outra via de se “fazer política”, cada vez mais presente. Quem há passou dos 50 deve se lembrar da gênese dos movimentos sociais em torno de temas como o racismo, a moradia, a ecologia, o feminismo. Foram manifestações que oxigenaram uma sociedade habitada pela ditadura. As ações se dirigiam ao Estado, disputavam políticas setoriais, ampliaram a capacidade de organização. Foram base de propostas partidárias e de políticas públicas consistentes.

Hoje, os movimentos que expressam a nova vitalidade social têm novos formatos, intentos e projetos. Conhecem o limite da institucionalidade, aprenderam a conquistar outros territórios, ampliaram a interpretação da luta de classes com novo patrimônio de inteligência política, compreendem a força agregadora da interseccionalidade. Apontam novas formas de “fazer política”, talvez mais marcadas pelo verbo que pelo substantivo. Os verbos indicam ação, e por isso são dinâmicos; substantivos evocam conceitos, e por isso almejam estabilidade.

O caso da prisão de Lula mostra que as duas formas de fazer política podem e devem andar juntas nesse momento. Lula livre, Lula candidato, Lula presidente. Povo livre, candidato popular, o povo no poder. Não são realidades alternativas. Tudo é política.

Edição: Joana Tavares