Eleições ameaçadas

Com disputa acirrada entre esquerda e direita, ameaças marcam eleições na Colômbia

Candidato de esquerda já sofreu atentado; cartunista se retira da internet por conta de ameaças de apoiadores de Uribe

Brasil de Fato | Bogotá (Colômbia) |

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Eleitor vota durante as eleições presidenciais de 2015.
Eleitor vota durante as eleições presidenciais de 2015. - Globovisión via Flickr/Creative Commons

Se a eleição para presidente da Colômbia fosse hoje, Ivan Duque e Gustavo Petro disputariam o segundo turno. A pesquisa de intenção de voto, divulgada no último dia 15, mostrou que Iván Duque, do Centro Democrático, aparece em primeiro com 35,4% entre o eleitorado, enquanto Gustavo Petro, do Movimento Colômbia Humana, uma aliança de centro-esquerda, está com 24,6%, em segundo lugar. Em comparação com resultados das últimas pesquisas, Petro manteve sua porcentagem e Duque cresceu. A proximidade das eleições, aliada à polarização política, têm dado vazão a ameaças e agressões nas redes sociais, com tons profundamente anti-esquerda.

De acordo com a mesma pesquisa, Germán Vargas Lleras, ex-vice-presidente colombiano, aparece em terceiro lugar com 10,7% das intenções de voto, seguido de Sérgio Fajardo, da Coalizión Colombia com 9,9%. Humberto de La Calle, candidato do partido Liberal e negociador do processo de paz, aparece com 3,1% e Vivian Morales, do partido Somos, alcançou 1%. A pesquisa foi encomendada pelo Caracol Radio e Red+ Noticias a empresa Cifras y Conceptos.

No último mês, os candidatos à presidência tiveram mais exposição na mídia depois de se enfrentarem em debates nos canais de alcance nacional. A revista Semana qualificou Gustavo Petro como o candidato mais seguro no primeiro debate da rede de televisão Teleantioquia. O segundo foi realizado em Barranquilla, no caribe colombiano, e contou com uma plateia bastante participativa. E no terceiro, realizado pela Telepacífico, Iván Duque não compareceu.

Os debates giram em torno de temas que afetam diretamente a população como os modelos de desenvolvimento econômico, relação entre a exploração de recursos naturais e o equilíbrio com o meio ambiente, as propostas para a geração de novos postos de trabalho formal, saúde e educação, entre outros. A imigração de venezuelanos para a Colômbia, os acordos de paz, os diálogos com ELN (Exército de Libertação Nacional) são polêmicos e despertam paixões.

De acordo com informe da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), a Colômbia figura entre os países com maior desigualdade social e concentração de renda entre os mais ricos. Apesar do DANE (Departamento Administrativo Nacional de Estatística) apontar uma diminuição da pobreza, 30% dos colombianos vivem em condições precárias - e os números se agravam ainda mais se levarmos em conta as diferenças entre campo e a cidade.

Ameaças nas redes

"Diante das ameaças de morte de alguns seguidores do Uribismo e do Centro Democrático, decidi não publicar nada nas redes sociais", afirma cartunista.

A medida em que se aproxima a votação, que acontecerá em 27 de maio, os ânimos também se acirram nas redes sociais. Apesar das inúmeras denúncias sobre as ameaças de mortes, pouco se investiga e a internet se torna um ambiente propício a proliferação de discursos de ódio e incitação à violência. No início do mês de abril, um dos caricaturistas mais famosos da Colômbia, Julio César Gonzáles, conhecido como o Matador, deixou a rede social Twitter devido a ameaças de morte de seguidores dos políticos e partidos que representam a extrema-direita colombiana.

Ariel Ortega Martínez, integrante do Centro Democrático, chegou a ser expulso do partido, depois de ameaçar o caricaturista. Outras ameaças atingiram também o candidato Gustavo Petro, que pediu uma investigação depois de um tuíte “convidar” as pessoas a votarem em Iván Duque e jogarem uma partida de futebol com a cabeça de Petro no estádio de Bogotá.

A cena grotesca sugerida pelo tuíte dirigido à Gustavo Petro já povoa a memória dos colombianos. Atos bárbaros similares foram feitos por paramilitares antes do processo de paz que desmobilizou essas organizações. No início deste ano, o carro de Petro foi atingido por disparos de arma de fogo, na cidade de Cúcuta, na fronteira com Venezuela, enquanto ele se deslocava para o local do comício.

O ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, padrinho político de Iván Duque, também foi alvo de manifestações violentas no departamento de Putumayo, enquanto visitava a cidade de Popayán. Ele foi chamado de “assassino” por manifestantes nos arredores de onde ocorria o evento do partido que representa. A polícia foi chamada para controlar a situação.

Guerra contra a esquerda

Nesta semana, o estrategista político venezuelano Juan José Rendón, radicado em Miami (EUA), disse que voltou a atuar nas eleições presidenciais colombianas. Em entrevista ao apresentador Jaime Bayly, do canal NTN 24, o marqueteiro disse que já havia “dado conta” de outros candidatos da esquerda, mas agora estava ocupado com Gustavo Petro, da aliança Colômbia Humana e Progressistas. O candidato Iván Duque, do Centro Democrático, negou o vínculo.

J.J. Rendón é um personagem polêmico e acumula em seu portfólio inúmeras campanhas de partidos da direita em vários países. Ele é uma das principais vozes contra o chavismo e os governos progressistas. Na Venezuela, trabalhava com a oposição ao lado de Henrique Capriles, foi assessor do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe (2005-2006) e também atuou na campanha presidencial de Juan Manuel Santos, em 2010.

No vídeo, ele diz que assumiu uma “briga com a esquerda e comunismo por toda a América Latina”. Rendón diz que está trabalhando de graça contra o candidato Andrés Manuel Obrador, no México, “vou fazer o que puder para que ele não ganhe”. Em seguida, diz: “me encarreguei da candidata Piedad Córdoba e da FARC, e estou cuidando de Petro por minha conta e risco”.

 

Na entrevista, ele afirma estar trabalhando de fora da Colômbia para que Iván Duque ganhe a eleição ainda no primeiro turno, “sem estar vinculado com nenhuma campanha”. J.J. Rendón é conhecido por suas campanhas feitas de publicidade negativa e/ou difamatórias contra seus adversários.

Em entrevista aos meios de comunicação colombianos, Iván Duque afirmou que não possui relação com J.J. Rendón e negou que ele esteja trabalhando em sua campanha presidencial. Mas o tema das campanhas “sujas” atingiu ao candidato nesta última semana. Duque teve de comparecer a Corte Constitucional em um processo que investiga a campanha do “não” no plebiscito depois que seu diretor afirmou que queriam um eleitor “furioso”.

Na ocasião, diversos setores acusaram o uribismo – seguidores do ex-presidente colombiano e representante da extrema-direita, Álvaro Uribe – de fazer uma campanha de mentiras e medo contra os acordos de paz. A corte investiga se a campanha usou mentiras para influenciar o voto dos cidadãos e diversos senadores do Centro Democrático estão envolvidos no caso.

O Brasil de Fato entrou em contato com a campanha de Petro mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira