Moradia

Em Cabedelo (PB) famílias lutam por desapropriação de terreno abandonado

Diante da dificuldade de pagar aluguel, 260 famílias ocupam área de terra abandonada e reivindicam a desapropriação.

Cabedelo (PB)

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O terreno ocupado por 260 famílias está abandonado há de trinta anos. / Gleyson Ricardo

 No dia 7 de abril deste ano, Daniel José de Lima, cansado dos altos preços do aluguel tomou uma decisão extrema. Juntou outras seis pessoas e ocupou um terreno que há mais de trinta anos estava abandonado. Era um sábado. Já no domingo a notícia se espalhou e em menos de uma semana o espaço já estava inteiro ocupado. "Hoje estou aqui com meu povo. E vamos lutar pra ganhar essa terra. Eu confio em Deus porque até agora eles não mostraram prova nenhuma. Tem essa liminar, mas nós continuamos lutando. Quem precisa tá aqui", explica Daniel, um dos líderes da ocupação.

Não foi um movimento organizado por militantes ou organizações sociais que levou essas pessoas a ocupar. A crise e a sua reverberação nos altos preços dos aluguéis foi o que fez essas 260 famílias ocuparam um terreno em Camboinha 3, no município de Cabedelo. Foi da necessidade que o movimento surgiu espontaneamente. Ali, como na maior parte dos lares brasileiros, também se fala na vontade de Deus. Só que diferente do discurso de ódio que usa da religião para propagar preconceito, na ocupação Terra do Sol Nascente esse Deus acompanha a luta e a resistência, está do lado dos mais necessitados. Mais uma vez não foi um teólogo da libertação que apresentou esses conceitos para os moradores, mas sim a resistência combinada com a religiosidade.




Antônio do Nascimento Moura, conhecido como Hulk, 38 anos, trabalha em uma fábrica de plástico na cidade. "A necessidade que nós temos aqui é muito grande. Porque a quantidade de pessoas desamparadas, muitas delas não pode nem pagar um aluguel, é grande", relata. Antônio tem quatro filhas e é membro da A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mais conhecidos como mórmons). Ele é mais um que usa a religiosidade para demonstrar compaixão e esperança nos momentos difíceis. Uma de suas filhas tem intolerância a lactose. Assim, além dos gastos já convencionais, ainda esse gasto extra o levou a tomar a decisão de se juntar a ocupação. "Hoje em dia um aluguel custa em torno de quinhentos a seiscentos reais. A gente ganha novecentos e sessenta. Tirando quinhentos reais como é que a gente vai sobreviver, como vai dar de comer aos nossos filhos?", pergunta Hulk.

A mesma indagação faz Edvaldo Félix Barbosa. "Quando não tem habitação e tem terra está acontecendo alguma coisa errada. Se você olha no semblante de um ser humano desses você já observa que ele está tirando de onde não tem para pagar um aluguel altíssimo, agua luz, gás. E vai comer o que? Por que a maior parte da renda da gente vai embora nessas coisas. Mas aí tem o remédio de uma criança, tem a feira, tem uma prestação de uma coisa ou outra. Então ele não consegue ter uma vida digna. Assim nós estamos só sobrevivendo e não vivendo", ressalta o pedreiro de 40 anos. 




Nesses dois meses foram diversos os percalços. O mais recente a tentativa da Empresa São Braz de retirar as famílias do local, afirmando ser a proprietária. O pedido de reintegração de posse foi negado em primeira instância. Porém, ao recorrer da decisão, a empresa conseguiu expedir um pedido de despejo que tem como prazo final a terça-feira, dia 05 de maio, mas não se confirmou. "Esse documento não existe, estamos confiantes de que vamos ganhar. Sabemos que é muita coisa que ainda vai vir. Sei que todos aqui merecem uma moradia", afirma Marlene Ferreira, 53 anos. Ela mora no bairro há quatro anos. Cansado dos altos custos do aluguel, ficou sabendo através de Daniel da ocupação e também seguiu para a luta.

Desde então movimentos sociais organizados como o Movimento de Trabalhadores por Direitos (MTD) tem se solidarizado a luta, juntamente com organizações de direitos humanos e preparado a resistência. 

Edição: Paula Adissi