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Centro é um lugar que não existe

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João Paulo: "A tradicional separação entre os dois polos históricos da política no Brasil não parece exibir mais a mesma musculatura" / Juca Varella/Agência Brasil
A fuga do confronto de projetos não é boa para a democracia nem para o país

O Brasil escolheu entrar no modo de espera. Tudo parece ser para depois. As eleições, que estão batendo à porta, caminham no ritmo da pré-campanha, com pré-candidatos e alianças instáveis de olho em conveniências. Os partidos ensaiam nomes para compor suas chapas, lançam balões de ensaio a todo momento, fazem e desfazem conchavos. As pesquisas eleitorais balizam esse processo, transformando a conjuntura real em meros cenários, no sentido teatral do termo. Nada, até segunda ordem, parece ser para valer. Até a véspera do registro das candidaturas, tudo pode mudar.

No entanto, com Copa e tudo, os dados já estão lançados e é sobre eles que precisa caminhar o debate político responsável. Se o campo hoje é ocupado pelos pré-candidatos, é bom lembrar que não existe pré-política. O empenho em deixar o fundamental para depois é uma atitude irresponsável e talvez irrecuperável. Há duas explicações para atmosfera de procrastinação: ou se trata de crise das estruturas políticas ou aposta na desmobilização eleitoral como estratégia de consolidação do golpe. No primeiro caso, uma tragédia; no segundo, uma farsa.

A polarização ideológica, cada vez mais inconciliável, está deixando clara uma realidade que vai na contramão das análises apresentadas pela mídia empresarial e por setores da academia. Na imprensa e nas mesas-redondas, tudo se mostra como se os extremos estivessem ocupados por candidatos inviáveis, deslocando o debate para o centro. Como no budismo, a virtude estaria no caminho do meio. Assim, depois de limpar a área, haveria no espectro eleitoral um grupo de centro-direita, um grupo de centro-esquerda, e um centro-centro, em busca de identidade. A topografia não corresponde à realidade. Centro é um lugar que não existe.

A tradicional separação entre os dois polos históricos da política contemporânea no Brasil, formados de um lado pelo PT e de outro pelo PSDB – com a sombra fisiológica do PMDB à espera da divisão do butim - não parece exibir mais a mesma musculatura. Mesmo assim, muitos cientistas políticos acreditam que ele crava ainda nessa eleição. O PT, ao se aproximar das candidaturas do PSOL e PCdoB na formação de um bloco para o segundo turno, poderia estar recuperando sua inspiração popular e com isso se mantendo vivo. Ciro Gomes, nesse grupo, corre em paralelo, próximo em valores políticos, distinto em projetos para o país.

Por outro lado, o PSDB, que deixou há muito a inspiração que está no seu nome e de social-democrata não tem mais nada, assumiria outra identidade. É hoje espécime da direita puro-sangue, dividindo espaço com outras emanações conservadoras e mesmo francamente reacionárias. Quem separa Bolsonaro de Alckmin, Meirelles ou Marina - ou dos novos liberais candidatos a gestores e exterminadores de estatais -, o faz apenas em torno da extração social e do cuidado com que usam as palavras. Há a direita que fala manso e a direita que rosna. No mais, são os mesmos valores antidemocráticos e o igual empenho destrutivo do edifício social. Sem falar da economia, com gurus intercambiáveis, recrutados no mercado.

O ambiente de fuga do confronto de projetos, que parece esperar a definição da situação eleitoral de Lula, não é bom para a democracia nem para o país. O momento é de confronto, sem fuga das divergências essenciais que dividem o campo político brasileiro. O clima de conflagração parece ter de tal forma se incorporado no dia a dia que as pessoas estão deixando de lado o inevitável e saudável momento da disputa. É para isso que serve uma eleição.

Cada lado está deixando passar tempo precioso para debater com o eleitor suas propostas de saúde, educação, segurança, direitos humanos, meio ambiente, comunicação, cultura. Há projetos de direita e projetos de esquerda. Não existe centro intocado de ideologia no atual momento nacional. Esperar a pacificação pelo consenso é o mesmo que aguardar a vinda do Salvador. Em política, a escatologia – a doutrina das coisas do fim do mundo - é sempre um péssimo caminho. Os militares que o digam.

Em momentos de alta estabilidade do sistema político, há um sentimento de confiança nas instituições que supera a identidade ideológica. O eleitor aceita perder para candidatos que pensam diferente do seu, mas que jogam pelas mesmas regras. A democracia é feita de alternâncias, ainda que frustrantes, algo que Aécio, por exemplo, não entendeu. Esse tênue momento de compartilhamento de valores universais pode estar em risco. Por isso não se pode adiar mais o debate político para as eleições de outubro. A incerteza para a esquerda é um risco, para a direita um argumento.

Edição: Joana Tavares