História

“Não existe documentário isento”, diz diretora de O Processo

A diretora Maria Augusta Ramos fala sobre o premiado documentário que retrata o impeachment de Dilma

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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O Processo, de Maria Augusta Ramos, reúne 137 minutos de imagens filmadas durante o impeachment da petista Dilma Rousseff / Foto: Divulgação

Sem entrevistas, narração ou comentários, o documentário O Processo, de Maria Augusta Ramos, reúne 137 minutos de imagens do processo de impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff (PT).

Além de ganhar os prêmios da categoria de Melhor Longa-Metragem no Festival Visions du Réel, na Suíça, e no Festival IndieLisboa, em Portugal, o filme foi aplaudido de pé aos gritos de "Fora Temer" no Festival de Berlim, na Alemanha, no qual ocupou o terceiro lugar na categoria Melhor Documentário – Prêmio do Público.     

Com quase 450 horas de material filmado ao longo dos meses que antecederam o golpe parlamentar de 2016, o documentário apresenta imagens dos bastidores do impeachment e relembra os momentos mais emblemáticos, como a votação pelo impedimento da presidenta na Câmara dos Deputados, por 367 votos a favor e 137 contra.

Em cartaz há quatro semanas em cinemas de todo o país, o longa tem sido bem aceito pelo público. Em relato divulgado pela página oficial do documentário, José Eduardo Cardozo, advogado e político brasileiro responsável pela defesa de Dilma Rousseff, define o O Processo como o documento mais fiel e histórico construído ao longo do impeachment. “Esse filme é exuberante porque ele consegue captar a alma de um processo que foi muito difícil, muito tenso”, declarou.

A deputada Jandira Feghali, que aparece no teaser do filme explanando sua posição na tribuna no fatídico dia, elogiou o resultado final do trabalho. “Para quem viveu ‘O processo’ como eu vivi, dentro da Câmara dos Deputados e acompanhando o Senado, foi muito importante ter visto uma peça de arte e de documentário que desnuda e ao mesmo tempo condensa em uma única tacada para o grande público, o que aconteceu neste momento histórico do Brasil.”

Em entrevista ao Brasil de Fato, Maria Augusta Ramos rebate as críticas de que o filme seria partidário. A diretora explica que retratou mais detalhadamente os bastidores da esquerda e da defesa da então presidente porque teve acesso a esses momentos, o que não foi permitido pelo lado da acusação.

“O filme contempla sim os argumentos da direita, a favor do impeachment, e contempla com muito respeito. Acho que é importante entender esses argumentos para que nós todos, como sociedade, seja de direita, de esquerda, centro, quem assista o filme, possa entender o que se passou, a complexidade desse momento que vivemos e estamos vivendo", afirma.

"Eu acho que o vivemos hoje em termos de crise política e econômica estão intimamente ligado ao processo de impeachment, é uma consequência dele”, diz a diretora, que com O Processo dá continuidade às abordagens do sistema judiciário que realizou na direção de outros três longas: Justiça (2004), Juízo (2007) e Morro dos Prazeres (2013).

Confira a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato – Qual foi a motivação para fazer essa produção e como conseguiu acesso aos bastidores do impeachment?

Maria Augusta Ramos – O que me motivou foi uma necessidade profunda de entender esse processo todo que estava acontecendo com o país naquele momento, e também entender as acusações contra a presidente. É essencial revermos esse momento, documentá-lo, para que possamos rever não só agora, mas em um futuro próximo, e avaliar, repensar, fazer uma autocrítica enquanto nação, de tudo que a gente viveu.

Essa é a razão principal pela qual decidi ir para Brasília fazer o filme. Como diretora, eu finalizei filmes que são ligados ao sistema Judiciário como Justiça, Juízo e Morro dos Prazeres, então, me instiga muito o que chamo de “Teatro da Justiça”, as relações sociais, humanas e de poder que acontecem ali nas instituições. E, por meio dessas relações, pensar e refletir sobre o país, sobre a sociedade brasileira. No momento que o impeachment passa na Câmara dos Deputados, senti uma necessidade muito grande de focar nesse processo político-jurídico que aconteceu no Senado. 

Foi uma decisão que eu tomei com uma certa urgência, não houve uma pré-produção, praticamente não deu tempo pra preparação nenhuma. Cheguei em Brasília e não tinha nenhuma autorização, não sabia o que eu ia encontrar, não conhecia nenhum daqueles atores sociais e políticos que se tornam personagem no filme. Então, eu tive que não só me aproximar deles como propor a eles que participassem da filmagem, conseguir autorização da Câmara dos Deputados e do Senado. 

Na Câmara não consegui autorização. Na época, o Eduardo Cunha era presidente da Câmara e negou a autorização, mas consegui no Senado Federal. Foi nos dada a autorização assim como para outras equipes de filmagem, o que foi essencial, sem conseguir essa autorização não teríamos realizado o filme.

É bem importante dizer que eu não tinha ligação nem com os parlamentares de direita, nem de esquerda, não conhecia ninguém. O filme é um processo de descoberta, o produto final é 137 minutos, a consequência cinematográfica de filmagem, de edição, que não é pensado antecipadamente. Ele acontece com o desenrolar dos acontecimentos e da relação, é claro, que os personagens passam a ter. O papel que eles passam a desenvolver tanto no impeachment, como durante a filmagem. 

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Maria Augusta Ramos, diretora do documentário (Crédito: Ana Paula Amorim)

Algumas críticas afirmam que o documentário toma um lado. O que pode comentar sobre esse argumento?

Olha, veja bem. Certamente, o filme é uma representação da realidade. É um registro, mas é um registro que não é isento. Não existe filme ou documentário isento, eu acredito que não existe nem mesmo um jornalismo isento. Esse filme não é imparcial, ele é produto de uma visão construída, adquirida, digamos assim, durante esse processo todo de descoberta e, ao mesmo tempo, ele também envolve a minha visão como ser político. Eu sou uma cineasta, eu sou um ser político, tenho valores específicos. Isso tudo faz parte dessa experiência cinematográfica que vai ser percebida pelo público.

Eu acredito que o filme pode ir além, deve ser muito mais. Deve ser capaz de retratar e refletir sobre essa complexidade que é a realidade, com as várias narrativas desse processo de impeachment e, nesse sentido, ir além da minha visão como indivíduo. 

As pessoas também podem ter uma posição diferente de minha ou nem terem uma determinada posição sobre o impeachment, podem ver o filme e se reconhecerem, se identificarem. Eu acho que é importante ter isso em vista, mas não existe isenção, isto é fato. É claro que existe uma proposta de cinema, e minha proposta de cinema é uma em que as pessoas possam, vendo e revendo tudo isso, tirar suas próprias conclusões, preencher suas lacunas, porque o filme também não dá conta de tudo.

De qualquer maneira, é certamente um filme que, pelo fato que tive maior acesso à defesa da presidente, retrata mais detalhadamente os bastidores da esquerda, da defesa da presidência, da liderança do Senado, da minoria, porque realmente não tive acesso aos bastidores do outro lado. Mas o filme contempla sim os argumentos da direita, a favor do impeachment, e contempla com muito respeito. Acho que é importante entender esses argumentos para que nós todos, como sociedade, direita, esquerda, centro, quem assista o filme; para que possamos entender o que se passou, a complexidade desse momento que vivemos e estamos vivendo. Eu acho que o vivemos hoje em termos de crise política e econômica estão intimamente ligadas ao processo de impeachment, é uma consequência dele. 

Em relação ao documentário em si, achei diferente e interessante não ter entrevistas e comentários. É sempre essa linguagem que utiliza? Porque essa opção?

O Processo é uma continuação de minha abordagem como documentarista. Eu desenvolvi uma linguagem, uma forma de fazer documentário que me interessa, que sempre me instigou, que é documentar e registrar como o indivíduo interage com o outro, com o meio em que ele vive, com a família, com a sociedade, com a cultura, com as instituições que representam a sociedade.

Pra registrar isso, não me interessa fazer entrevistas. Quero registrar essa interação enquanto ela acontece. Todos os meus documentários são construídos a partir da observação do cotidiano, de personagens, de pessoas reais que eu convido, que concordam em participar, em dividir a vida cotidiana delas comigo, que concordam em serem retratadas no meu filme.

Qual avalização faz da  repercussão internacional do filme?

O filme foi muito bem recebido, tanto aqui dentro como lá fora. Em Berlim, foi ovacionado durante o Festival de Berlim, depois recebeu o prêmio de melhor documentário no Visions Du Reel, na Suíça, que é um festival muito importante de documentário no mundo. Foi exibido em Toronto (Canadá), em Lisboa (Portugal).

Ganhou também o Festival Documenta Madrid, foi escolhido como o melhor filme. Ele é reconhecidamente um filme importante enquanto cinema. Isso pra mim é fundamental. Por outro lado, acho que esse reconhecimento que está tendo no Brasil pelo público que tem ido ao cinema assistir, até agora foram quase 60 mil pessoas e o filme está em cartaz há quatro semanas. É importante, porque a gente faz um filme com a intenção de comunicar algo, para que as pessoas vejam e se identifiquem. 

Existe certamente, para quem não viu o filme, vou dizer aqui, existe uma crítica que é feita e uma autocrítica ao Partido dos Trabalhadores (PT). Não é um filme chapa branca, não é um filme panfletário, é um filme que incomoda e vai incomodar e deve incomodar a todos. A todos nós. Todos nós como cidadãos temos uma responsabilidade em tudo isso que aconteceu.

Em todos os meus filmes eu tento fazer isso, evitar o maniqueísmo, evitar o reducionismo entre bons e maus, culpados e inocentes. É importante haver uma autocrítica da esquerda, mas é importante haver uma autocrítica da direita e da grande mídia. Para conseguirmos refletir sobre a estrutura política que a gente vive, sobre o Legislativo, sobre o Judiciário, ir mais além do que a questão de um político culpado. Pra entender a própria corrupção, para entendermos a quem esse discurso serve e o que está por trás dos interesses econômicos desse processo que está acontecendo no país desde o impeachment, ou mesmo antes. 

Há uma mensagem principal em O Processo?

O filme não tem uma mensagem, ele é produto de uma reflexão que se deu em 137 minutos de um processo complexo que envolveu diferentes discurso e narrativas, com a proposta de levantar questionamentos sobre esse processo jurídico-político. A intenção é a reflexão. Claro que o processo de edição e de filmagem envolve um comprometimento com a ética. Toda decisão em termos de edição é estética e ética. Estética porque envolve decisões estéticas relacionadas à estrutura do filme, às cenas, à narrativa, ao desenvolvimento dos personagens, e ética porque ela deve registrar os fatos de acordo com que aconteceram. É o mínimo que deve ocorrer, independente de qualquer visão.  

Edição: Diego Sartorato