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Entre tradição e modernidade, São João de Caruaru (PE) resgata o forró e xaxado

Considerada a maior festa junina do Brasil, atração tem atividades culturais, comidas típicas e música diversa

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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No primeiro fim de semana da festa em Caruaru (PE), o público foi de 80 mil pessoas. / Sumaia Vilela | Agêrncia Brasil

Festas juninas espalhadas pelo país mudam o cenário de diversas cidades no mês de junho. Algumas acontecem na relação entre vizinhos e familiares, que compartilham histórias, especialidades e pratos.

As festas maiores, características do Nordeste brasileiro, arrastam multidões em shows de grandes artistas e nos espetáculos conhecidos internacionalmente.

A tradição que começou no século 16, para homenagear São João e Santo Antônio, com um caráter estritamente religioso e tradicional, mudou de formato e integrou outros elementos, típicos da modernidade.

O São João de Caruaru, em Pernambuco, e o de Campina Grande, na Paraíba, são duas das maiores comemorações ocorridas no período.

No primeiro fim de semana da festa em Caruaru, o público foi de 80 mil pessoas. O evento vai até o fim de junho.

Com dez discos gravados e figura conhecida as festas juninas nordestinas, a cantora Irah Caldeira fala sobre a relação afetiva que possui com o São João de Caruaru.

“Eu me agarro muito a história do São João, aquilo que está no meu imaginário: a fogueira, a bandeirola, dos casais dançando juntos, das crendices populares. O São João, para mim, é tradição”, comenta.

Francisco Terto, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra em Pernambuco, ressalta que todas as tradições nordestinas se encontram no São João de Caruaru.

“A cidade tem uma história belíssima e produziu um grande acervo cultural. A partir de Caruaru foi se produzindo um ritmo que ficou conhecido no Brasil inteiro, que é o forró. Luiz Gonzaga, por exemplo, foi um grande propagandista do forró e do São João de Caruaru para o mundo inteiro. Durante o mês inteiro, você tem contato com a cultura popular, seja no repente, no xaxado, no artesanato”, afirma

Um dos maiores nomes da MPB, Elba Ramalho criticou a organização do São João de Caruaru em 2017, alegando que a organização da festa priorizou outros estilos em detrimento ao forró nordestino.

A crítica da baiana, que está na programação desse ano, é compartilhada por Jadir de Morais, professor da Universidade Federal de Goiás e especialista em cultura popular. Para ele, tanto o São João de Caruaru, quanto o de Campina Grande, perderam sua essência e se distanciaram da tradição que os consolidou.

“Vejo que hoje essas festas expressam uma grande contradição. Existe a questão da sobrevivência desses motes tradicionais, dos festejos juninos, da cultura nordestina, da dança, do tipo de comida. Na verdade, isso continua no discurso, mas a estrutura da festa não contém mais nada disso. Não há mais tradição nordestina. Não é mais cultura popular”, opina.

Ranuzia Neto, da Frente Brasil Popular de Caruaru, acredita que o São João ainda exerce um poder de resistência da arte popular.

“É muito significativo falar do São João de Caruaru. Eu acredito que a arte é uma maneira simbólica e significativa de luta e resistência, sobretudo da arte popular, que coloca nossa voz nas manifestações culturais como um todo”, diz.

Assim como o São João de Caruaru, a festa em Campina Grande também vai durar o mês inteiro. A expectativa dos organizadores é levar mais de dois milhões pessoas ao evento.

*Com colaboração da equipe de jornalismo do Brasil de Fato (PE).

Edição: Camila Salmazio