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Brasil: o momento no qual o óbvio precisa ser dito

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As esterilizações sem consentimento aparecem em momentos de predomínio de ideias racistas, xenofóbicas e eugenistas / Mídia Ninja
Já se descobriu que este não foi o único caso naquela região

Sabe aqueles filmes cheios de ação que nos deixam tensos do início ao fim? Ou até mesmo aqueles dramas nos quais o protagonista parece sofrer com todos os males do mundo? Pois é. Tais representações muitas vezes podem parecer desenho infantil diante da realidade do que vemos acontecer diariamente em nosso país. Absurdos atrás de absurdos compondo um cenário de horror que não parece ter fim.

O parágrafo tão cheio de adjetivos é para conseguir minimamente expressar o sentimento de indignação com uma notícia divulgada agora em junho de 2018 sobre uma mulher, de nome Janaína, que foi submetida compulsoriamente a um procedimento de esterilização lá no interior de São Paulo. Tratou-se de uma laqueadura, popularmente também chamado de ligação de trompas, cirurgia que esteriliza a mulher de forma definitiva. E, como se ainda fosse possível, esta história ainda parece piorar, pois já se descobriu que este não foi o único caso naquela região.

A realização de esterilizações sem consentimento aparece em vários momentos de nossa história. E, para nossa tristeza, sempre em momentos muito difíceis a partir do predomínio de ideias racistas, xenofóbicas e eugenistas. E a verdade é que mesmo que não quiséssemos considerar todo um passado de horror, não tem o menor cabimento, sob qualquer perspectiva, pensarmos num ato brutal como este no corpo de uma mulher.

 Precisamos avançar bastante em nosso país no que chamamos de direitos sexuais e reprodutivos, especialmente para as mulheres. Um dos elementos dentro deste campo é a disposição e o acesso à métodos contraceptivos dentro do nosso Sistema de Saúde. Apesar dos avanços que já tivemos, temos muito por avançar. Gosto de usar o exemplo do DIU, o Dispositivo Intrauterino. Bastante utilizado em boa parte do mundo, é um dos métodos mais seguros e eficazes que existem, mas pouco conhecido e utilizado no Brasil.

 O caso de Janaina e sua esterilização forçada está inserido em um contexto de crescimento de pensamentos fascistas no seio de nossa sociedade. Não podemos nos calar diante de casos como este. Esta escalada é perigosa e não sabemos bem, inclusive, onde podemos parar. Estamos vivendo um momento onde o óbvio precisa ser dito. E lutar por nossos direitos deixa cada dia mais de ser um direito e passa a ser um deve de cada um e de cada uma de nós.

Edição: Monyse Ravena