PERSEGUIÇÃO

Eleições turcas aconteceram em clima de tensão e insegurança, afirma membro do HDP

Representante do Partido Popular Democrático da Turquia denuncia perseguição a opositores e fraude em urnas

São Paulo

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Reeleito na semana passada, presidente turco Recep Tayyip Erdoğan está há 15 anos no poder / Flickr/AMISOM Public Information

O representante do Partido Popular Democrático da Turquia (HDP) na Europa, Eyyup Doru, divulgou uma nota sobre as eleições realizadas no país na semana passada. A vitória do atual presidente Recep Tayyip Erdogan foi conquistada, segundo Doru, às custas de "um clima de tensão e insegurança”, com uma série de ações promovidas pelo governo para fraudar urnas e dificultar a participação de eleitores curdos.

Antecipado em 18 meses, o pleito foi realizado em meio a um estado de emergência que já dura mais de dois anos e um cenário de perseguição política contra opositores do regime de Erdogan.

O representante do HDP afirma que o governo realizou “prisões em massa de centenas de prefeitos eleitos legitimamente na região do Curdistão, substituindo-os por membros de confiança do governo central” e lamenta que lideranças e membros de seu partido “foram, mais uma vez, duramente atingidos durante essa campanha, com mais de 9 mil detidos e o assassinato de três […] apoiadores em Suruç”, próximo da fronteira com a Síria.

O HDP enfrenta resistência, mesmo entre setores da oposição ao regime turco, pela relação com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), movimento que faz luta armada pela autodeterminação do povo curdo.

Leia a nota na íntegra:

Mais uma vez, as eleições presidenciais e legislativas [da Turquia] aconteceram em um clima de tensão e insegurança.

Em um contexto de renovação constante de um estado de emergência, desde o golpe fracassado de 15 de julho de 2016, data em que o governo se apressou para ampliar o controle sobre várias cidades do país, dominando o sistema judiciário e as demais esferas de poder (executivo, judicial e militar).

Essa abordagem também permitiu que o regime atual realizasse prisões em massa de centenas de prefeitos eleitos legitimamente na região do Curdistão, substituindo-os por membros de confiança do governo central. Lideranças e membros do nosso partido foram, mais uma vez, duramente atingidos durante essa campanha, com mais de 9 mil detidos e o assassinato de três de nossos apoiadores em Suruç.

A aquisição, por um parente do presidente [Recep Tayyip Erdogan], de um dos últimos grandes meios de comunicação do país, o Dogan Haber, permitiu que Erdogan consolidasse seu controle sobre a mídia na Turquia. Foi, portanto, em um contexto de domínio total sobre a imprensa independente que toda a campanha eleitoral aconteceu antes desse pleito antecipado (encurtado de forma abrupta em 18 meses).

Apesar dessas condições de desequilíbrio, mais uma vez superamos o limite mínimo obrigatório de 10% para entrar no parlamento e também obtivemos mais votos que nas eleições anteriores, aumentando de 59 para 68 nosso número de deputados. Nosso candidato a presidente, Selahattin Demirtaş, que pôde realizar uma campanha muito limitada, por estar preso na penitenciária de Edirne, conquistou 8,4% dos votos. Mantemos, assim, nossa posição como terceira maior força no parlamento e continuamos sendo o principal partido da região curda.

O AKP [Partido Justiça e Desenvolvimento], aliado à extrema direita – que não indicou candidatos à presidência para apoiar o partido –, tendo recorrido a uma fraude eleitoral de grandes proporções, venceu as eleições presidenciais com 52% dos votos (Erdogan, portanto, manterá seu status de presidente), mas não conseguiu a cobiçada maioria qualificada que possibilitaria uma mudança na Constituição para ampliar seu domínio.

O AKP (com 42% nas eleições legislativas), portanto, não atingiu seus objetivos e dependerá da extrema direita (MHP, com 11,1%) para garantir maioria simples no parlamento. O CHP [Partido Republicano do Povo] obteve 22% dos votos nas eleições legislativas, enquanto Muharrem Ince [candidato do CHP] conquistou 30,6% dos eleitores.

O Parlamento Europeu decidiu suspender o envio de delegações de observadores para a Turquia neste ano, enquanto a OCSE [Organização para a Cooperação e Segurança na Europa] declarou que não enviou delegações para as regiões de fronteira por questões de segurança. No entanto, a lei aprovada em circunstâncias extremas pelo Alto Conselho Eleitoral autorizando a transferência arbitrária de locais de votação em certas regiões curdas (moradores de alguns povoados tiveram que viajar vários quilômetros, sem carro, para votar), reforçou a necessidade de realizar monitoramento nessas localidades.

Entre as delegações independentes que visitaram essas regiões, compostas por representantes de partidos políticos e representantes eleitos por associações, a maioria dos participantes foi detida e ficou sob custódia até o fim do pleito, para impedir seu trabalho como observadores contra a fraude eleitoral.

A situação de angústia em que o país está mergulhado há anos e a deterioração alarmante de diversos princípios fundamentais nos colocam diante de um futuro incerto, mas isso não nos desanima de forma alguma. Pelo contrário, apenas nos estimula a continuar nossa luta por democracia nos próximos meses e anos, independentemente dos novos obstáculos que já estejam se colocando para bloquear nosso caminho.

Eyyup Doru

Representante europeu do HDP

Edição: Mauro Ramos | Tradução: Aline Scátola