Terra

Contra a humilhação do golpe, reforma agrária popular

Atividade do Congresso do Povo no acampamento Marielle Vive, em São Paulo, aponta novos rumos para o Brasil

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Reunião no acampamento Marielle Vive, em Valinhos, discutiu os rumos políticos, sociais e econômicos do Brasil / Douglas Mansur

O acampamento Marielle Vive, em Valinhos (SP), realizou, neste domingo (8), a primeira de três reuniões temáticas para o Congresso do Povo Brasileiro, iniciativa da Frente Brasil Popular que convoca a população a debater os rumos políticos, econômicos e sociais do Brasil.

 

Com pouco mais de 1,2 mil famílias registradas, o acampamento foi levantado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em 14 abril deste ano em uma fazenda improdutiva que pertencia ao grupo Eldorado Empreendimentos Imobiliários.

 

Cerca de 200 pessoas participaram da atividade do Congresso do Povo, que contou com a avaliação de conjuntura de Márcio Pochmann, doutor em ciência econômica da Universidade de Campinas (Unicamp), e de Márcio José, da coordenação nacional e da frente de massas do MST, que apresentou o projeto de reforma agrária popular defendido pelo movimento.

 

“Nós estamos em uma região que, graças ao trabalho escravo, já foi o principal centro produtor de café do mundo. Muitas famílias se tornaram poderosas assim”, relembrou Pochmann, que buscou apresentar o processo histórico que causou a desigualdade presente.

 

“Na década de 1930, após a crise do café, teve início o êxodo da população agrária para as cidades, e a estrutura existente de concentração fundiária e de segregação social/racial se transplantou”, prosseguiu.

 

Segundo Pochmann, a concentração sistemática de famílias vindas do campo nas cidades brasileiras serviu para criar um estoque de desempregados que pressiona os salários para baixo na indústria, além de empurrar famílias a prestar serviços domésticos em condições precárias para a elite econômica do país. Ao mesmo tempo, com o campo esvaziado, ficou mais fácil estabelecer latifúndios para o agronegócio.

 

“São imposições históricas de uma elite indiferente”, avaliou o professor. “Durante os governos do PT, o Brasil vinha se transformando, mas, para essa elite, um país justo e soberano não interessa. Por isso tivemos o golpe [contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016] e vivemos um governo [de Michel Temer, do MDB] de retrocessos e retirada de direitos”, completou.

 

Pochmann apresentou dados que comprovam o dano à representação política e econômica causada por esses processos no Brasil: hoje, apenas 40 mil fazendeiros controlam mais da metade dos 400 milhões de hectares de terra destinada à prática agrícola no país, e 180 deputados federais são considerados representantes do agronegócio corporativo –a chamada “bancada ruralista”.

 

Da mesma forma, enquanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra que 3,2% da população brasileira tem como ocupação “empresário”, 42% dos parlamentares com mandato atualmente se identificam como proprietários de negócios.

 

Reforma Agrária Popular

 

Márcio José, da coordenação nacional do MST, apresentou a alternativa que o MST defende para esse quadro social fraturado e excludente.

 

“O que chamamos de reforma agrária ‘clássica’ é o que ocorreu na Europa, em que o planejamento urbano e rural foi conjugado para equilibrar a propriedade e a produção agrária e industrial. Foi um movimento que contou com o apoio de uma burguesia mais progressista. Infelizmente, isso, no Brasil, não é possível”, apontou.

 

Segundo José, no país, os grandes donos de terra também são os industriais, empresários do setor financeiro e de mídia, e, mais recentemente, inclusive celebridades, como atletas, cantores sertanejos e pastores. “Terra é status”, ressaltou.

 

O Brasil sofre ainda do legado do período colonial: o modelo de produção rural vigente é marcado pelo latifúndio, a monocultura e a precarização do trabalho, com o objetivo de abastecer de matéria prima o mercado externo, e não de abastecer o próprio país.

 

“Por isso, defendemos a reforma agrária popular, feita a partir do povo, sem aliança com a burguesia, que respeita e defende o meio-ambiente e que possa produzir novas relações pessoais”, explicou.

 

O objetivo, portanto, é criar territórios de comunidade, em contraposição à propriedade privada. “Nós queremos permitir às dimensões humanas que sejam levadas ao extremo. Queremos democracia no conceito mais amplo da palavra”, resumiu José.

 

O sentimento do golpe

 

Organizados em núcleos, os acampados que participaram do debate expuseram a forma como têm se sentido nos últimos anos, desde a retomada de um projeto nacional neoliberal e antipopular puxado pelo governo golpista de Temer.

 

“Vivemos uma injustiça, onde a sociedade só pensa em si próprio. Antigamente a gente era unido com a família, nos reuníamos e fazíamos festa. Hoje não tem nada disso. A gente come arroz e feijão e dá graças a deus porque tinha”, contou o acampado Dionísio.

 

“Estamos à mercê de Deus, estou cansado. Me sinto humilhado e mal visto pela sociedade. Ou seja, estamos sendo mal tratados. Se você é da favela, você não é atendido, se você é do acampamento, você é mal visto”, relatou o acampado Rodrigo. Um outro acampado relatou que sofre preconceito até quando pretende comprar produtos nas lojas, onde se sente julgado pela sua aparência.

 

“Estamos vivendo a ditadura. Os nossos políticos dizem que a ditadura passou, mas não existe país democrático ainda. Estamos vivendo uma escravidão. Tanto é que quando pedimos empregos, eles nos pedem o comprovante de votos. Isso é voto de cabresto”, protestou a acampada Marlene.

 

“Temos sentido o aumento e a dificuldade de pagar o aluguel e comprar comida. Teve aumentos abusivos da água, da eletricidade e, principalmente, do gás de cozinha. Muitos de nós sofremos com desemprego, não conseguimos trabalho para nos sustentar. E as pessoas estão sentindo o ódio contra os pobres, que causa uma depressão muito grande, uma desesperança na melhoria da vida” contou o acampado Lopes.

 

“A gente conversou bastante no nosso núcleo, e todo mundo se sente explorado e incapaz. O retrocesso que está acontecendo todos os dias contra a gente é uma volta ao tempo dos escravos. São muitos impostos, os preços aumentos, nos fazem contrair dívidas. Há o sentimento de incapacidade de educar os filhos”, disse a acampada Naiara.

 

“A solução é continuar ocupando o campo e não deixar que a nossa população migre para ser explorada na cidade. Nós precisamos de uma aliança entre o povo do campo e da cidade para criar uma sociedade mais igualitária”, concluiu Naiara.

Edição: Juca Guimarães