Saúde Pública

REPÓRTER SUS | Sangue gratuito, seguro e de qualidade

Luiz Amorim, diretor-geral da Hemorio, conta como o País passou a garantir excelência na oferta de sangue

Brasil de Fato | Rio de Janeiro

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A primeira Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás) foi iniciada em 2004, em Goiana (PE). / Reprodução Hemobrás

Antes da criação do Sistema Único de Saúde, sangue no Brasil era vendido. Hoje, qualquer um que necessitar recebe sangue de forma gratuita e também medicamentos produzidos a partir do sangue. Porém, nem sempre foi assim, o controle de todo esse processo era privado, de qualidade duvidosa, e resultou, por exemplo, na contaminação por HIV/Aids de várias pessoas.

No Repórter SUS desta semana, dando continuidade às reflexões sobre os avanços na saúde pública e quais os prejuízos que teremos se o Sistema Único de Saúde acabar, o diretor-geral do Hemorio, Luiz Amorim, explica por que o SUS preserva vidas.

Acompanhe trechos da entrevista:

 

O SUS está completando 30 anos, em 2018, e uma das políticas mais importantes para a população, e em termos de saúde pública, foi a política do sangue.

Até 1986, o sangue no Brasil podia ser vendido. Havia centenas de bancos de sangue de péssima qualidade, espalhados por todo o País. Esse sangue, evidentemente, trazia muito risco para a população. Não foi à toa que muita gente se contaminou com HIV nos anos 1980, quando a doença surgiu, e isso é um grande problema de saúde pública. Muita gente se contaminou nas transfusões.

Pressão popular

Isso gerou um movimento muito forte por parte dos militantes da saúde pública, Sérgio Arouca, por exemplo, pessoas que dependiam de [transfusão] sangue, como Betinho, Henfil e o Chico Mário, os três irmãos que foram muito importantes nessa causa, os três contaminados pelo HIV nas transfusões. O que resultou numa pressão popular bastante forte que chegou aos parlamentares, gerando a proibição da comercialização do sangue e seus derivados, estabelecida na Constituição de 1988.

Foi um grande avanço para a época e fundamental para barrar aquele estado de calamidade que ocorria em relação ao sangue.

Política de Sangue

Desde então, o Brasil passou a adotar uma Política de Sangue centralizada, em nível dos estados. Foram investidos recursos nos hemocentros, nas coordenações regionais, foram criadas redes hierarquizadas por estado. Com isso, a qualidade do sangue no Brasil mudou da água para o vinho.

Hoje, a gente pode dizer que a política de sangue brasileira é comparável a de países da Europa e Estados Unidos. É realmente um sangue bastante seguro, de qualidade. Essa melhora na segurança, na qualidade e na disponibilidade, para a população, trouxe também uma reformulação do setor. Muitas inovações que são bastante importantes para o País.

Hemobrás

Um dos grande avanços foi também a criação de uma empresa pública, a Hemobrás [Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia], cuja finalidade é a produção de hemoderivados, medicamentos a partir do sangue, a partir do plasma, que é a parte líquida do sangue. Somente 10% do plasma, que vem das doações de sangue, tem uso terapêutico, uso em transfusões, o resto é sobra. Essa sobra é descartada ou destinada à indústria de hemoderivados, que o Brasil não tinha e passou a ter com a Hemobrás.

A Hemobrás enfrentou problemas recentes, então ainda não está plenamente funcionando, mas não vai tardar a acontecer, assim esperamos. Isso tudo vai colocar o Brasil num clube muito seleto que é o dos países que produzem medicamentos a partir do seu sangue.

Hemoderivados

Outro fator de mudança foi o da hemofilia. Ainda que o Brasil não produza localmente, já há acordos tecnológicos, acordos de transferência de tecnologia, que permitem aumentar muito a oferta de hemoderivados a muitos pacientes, especialmente para os hemofílicos, bastante afetados pela contaminação transfusional do HIV. Hoje, eles recebem gratuitamente do Estado brasileiro os fatores da coagulação, independente do local que estiverem em tratamento, hospital privado inclusive.

A Política Nacional de Sangue avançou muito e tem que avançar mais. Um dos pontos críticos é ampliar o número de doadores de sangue, mas podemos dizer que os resultados têm sido excepcionais e o povo brasileiro pode dispor de sangue gratuito, de qualidade e muito seguro.

 

*O quadro Repórter SUS é uma parceria entre a Radioagência Brasil de Fato e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz)

Edição: Cecília Figueiredo