espectro

Em 2018, Centrão é cooptado pela direita

Questão volta à tona em meio a definição de alianças para disputa eleitoral

Brasil de Fato | Brasília (DF)

,

Ouça a matéria:

Candidato tucano, Geraldo Alckmin recebeu apoio de legendas que integram o auto-denominado "centrão" / Marcelo Camargo/ABR

O recente apoio ao pré-candidato Geraldo Alckmin (PSDB) por parte de um conjunto de partidos, bem como a própria classificação da candidatura tucana como de “centro” por parte de grande parte da imprensa suscitam uma velha questão: quais são as posições políticas do “centrão”?

No Parlamento, legendas como PP,  PRB, PR e DEM  tem bancadas de tamanho médio, mas juntas são fundamentais no período eleitoral, principalmente por conta de seu tempo de televisão. No plano ideológico, o DEM, herdeiro da Arena, se destaca do grupo: desde 1994 tem apoiado o PSDB. Os outros três, por exemplo, apoiaram a candidatura do PT em 2014. Em 2018, o Solidariedade, que também “integra” o grupo, preferia Ciro Gomes (PDT), mas aderiu à linha das outras legendas. 

A primeira vez que se falou em centrão na política brasileira foi durante a Assembleia Constituinte, em 1988. Aldo Arantes, integrante de direção nacional do PCdoB, foi deputado constituinte. Para ele, há três coisas distintas: o centrão histórico, o centro politico e o novo centrão. Nem mesmo o centrão histórico, segundo era, era exclusivamente de centro. 

“Uma coisa é centro outra é centrão. Centrão foi uma conotação utilizada a partir da Assembleia Constituinte, da qual eu participei. Era uma articulação do centro com a direita. O que aconteceu na Constituinte? Você tinha um setor progressista, um de direita e tinha o centro. No início da Constituinte, a direita conseguiu atrair o centro e formou o centrão”, diz. 

Arantes destaca que, posteriormente, o centro político da Constituinte foi atraído pela esquerda, o que resultou no texto progressista da Constituição. Ele destaca que o novo centrão tem muitas similaridades com o histórico, sendo composto pelo centro e pela direita do espectro político. A novidade estaria no fisiologismo de parte destes grupos. 

Em seu ponto de vista entretanto, é necessário distinguir cada elemento dessa articulação: “Na minha opinião, é uma articulação de centro-direita. Hoje, o centro foi cooptado pela direita.É uma luta política disputar o centro e fazê-lo descolar da direita. Um dos problemas da conjuntura é que a esquerda perdeu o apoio do centro. Isso, politicamente, é muito ruim”. 

Valter Pomar, professor de História da UFABC e militante do PT, tem uma visão mais crítica do conjunto do centrão. De outro lado, destaca o caráter relativo do centro do espectro político. 

“Esse centrão ao qual você está se referindo na verdade é a direita. O centro na vida política do país existe, mas o centro nesse período em que estamos vivendo se esvaziou. Esse critério só é possível quando se define a esquerda e a direita. Nesse momento, a direita e a esquerda estão ampliando a polarização. Então o centro está se esvaziando. Não existe na verdade centro, existe esquerda e direita e quem está em disputa. O centro é um estado transitório”,  aponta. 

Para ele, portanto, a existência de um centro político estável estaria condicionada a uma proximidade das agendas de direita e de esquerda, o que não se verifica hoje. Arantes e Pomar concordam em um ponto: politicamente, não se pode considerar a candidatura Alckmin como de centro à luz de Bolsonaro, já que o último é de extrema-direita, ainda que tenham proximidades no campo econômico. 

“Os partidos se autodenominam, a maioria dos partidos se autodenominam de centro. Os únicos que se denominam pelo que são [ideologicamente] são os de esquerda. Depende do ângulo, quem estiver no PSDB certamente considera Bolsonaro como direita e Alckmin como centro. Sabe o que isso me lembra? Entre 1934 e 1936 houve uma disputa no Partido Nazista entre a SS e a SA. Há alguns historiadores que colocam as SA, grupos paramilitares e civis, como a sendo a esquerda do partido do Nazista”, afirma Pomar. 

O apoio do chamado centrão a Alckmin garantiu a ele um tempo de TV quarenta vezes maior que o de Bolsonaro, candidato que lidera as pesquisas pela direita, porém, bem atrás do Lula, que tem a preferência dos eleitores. O tucano terá mais de cinco minutos diários, ante aos oito segundos do Jair Bolsonaro. 

Edição: Juca Guimarães