SAÚDE

Repórter SUS | Mortalidade materna aumenta

Taxa passou de 62 óbitos por 100 mil nascimentos em 2015, para 64,4 em 2016

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Meta estabelecida em 2015, pelo governo brasileiro junto à ONU, era reduzir para 35 óbitos em cada 100 mil nascimentos / Foto: Gustavo Gomes/EBC

A mortalidade materna voltou a subir no Brasil. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a taxa passou de 62 óbitos por 100 nascimentos, no ano de 2015, para 64,4 mortes maternas em 2016.

Embora evitável, a mortalidade materna é aquela decorrente de causa relacionada ou agravada pela gravidez, parto ou até 42 dias após o parto. Trata-se de indicador importante da qualidade da assistência à saúde da mulher durante o pré-natal, parto e puerpério.

Em 2000, o governo brasileiro se comprometeu em reduzir a mortalidade materna para uma meta de 35 óbitos para cada 100 mil nascimentos até o ano de 2015, como parte dos objetivos estabelecidos de desenvolvimento do milênio assumidos junto à Organização das Nações Unidas (ONU). O que não ocorreu.

No Repórter SUS desta semana, produzido em parceria com a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz, a pesquisadora da Fiocruz Maria do Carmo Leal, coordenadora da pesquisa “Nascer do Brasil”, alerta que o aumento na taxa da mortalidade infantil pode ser reflexo do empobrecimento da população, do desmonte de políticas públicas para as áreas sociais e da queda na cobertura da Atenção Básica e hospitalar, em decorrência do corte de recursos para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Confira trechos da entrevista:

Essa informação que aparece sobre o óbito materno aparece associado com outra, o aumento da mortalidade infantil. Juntando essas duas [taxas] podemos imaginar que talvez isso não seja uma flutuação. Embora o aumento tenha sido discreto [entre 2015 e 2016], já represente uma tendência de aumento de mortalidade de crianças e de mães, frente à situação de desfinanciamento do setor público que estamos vivendo. Não apenas do setor público de saúde, mas também dos programas sociais.

Sabemos que houve uma diminuição do investimento em programas que eram voltados aos segmentos mais vulneráveis socialmente da população brasileira, como o Bolsa Família. E qualquer mexida, no sentido de piorar as condições mínimas de vida desse segmento, pode colaborar para um aumento do risco de morte.

Particularmente com as crianças, aumentou a mortalidade por diarreia, o que significa, exatamente, o óbito ligado à situação de pobreza. Em relação às mulheres, o que a gente viu no óbito materno é que esse aumento ocorreu nas áreas mais pobres, no Norte e Nordeste. Isso parece traçar um perfil de que a situação de saúde, a piora desses indicadores está também refletida na piora da condição de vida dessa população.

Fatores 

A mortalidade materna é muito sensível a dois fatores, a Atenção Básica no pré-natal, onde é identificada uma série de problemas que a mulher possa ter na gestação e ser resolvida, ao minorar a sua gravidade.

O óbito materno está bastante ligado a boa ou má condição de assistência às mulheres no [atendimento] hospitalar, onde hoje 99% das mulheres ganham seus bebês. Estamos vivendo, também no sistema público hospitalar, dificuldades de falta de insumos, de medicamentos e [presença de] profissionais desestimulados. Na falta de condições de trabalho, os profissionais ficam desanimados para fazer as suas tarefas, por falta de meios para atuar.

O óbito materno está muito associado com a atenção na hora certa para o problema que se apresenta. Por exemplo, esse empobrecimento da população pode diminuir também as condições para a mulher se deslocar rapidamente para o hospital.

Então, esse conjunto de coisas pode colaborar para que o aumento da mortalidade materna esteja acontecendo.

 

* O quadro Repórter SUS é uma parceria entre a Radioagência Brasil de Fato e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz)

Edição: Cecília Figueiredo