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A luta pela terra em versos

O poeta Luiz Beltrame de Castro retratou em seus textos a realidade daqueles que buscam por justiça social

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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O poeta sem-terra publicou dois livros: o “Sonho Com a Terra”, de 2002 e o “Sonho com a Vida”, de 2009 / Divulgação

Faltava-lhe o conhecimento teórico das letras, mas sobrava a vontade de expressar o amor por um Brasil que só os olhos de um poeta conseguem enxergar. Foi assim que seu Luiz Beltrame de Castro, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), viveu os 107 anos de sua vida: colocando no papel o seu sonho de poeta sem-terra . 

A pedagoga Lidiane Aparecida da Silva mora no mesmo assentamento que seu Luiz viveu, o Reunidas, em Promissão, no estado de São Paulo. Ela conta que a militância por um país mais justo, com terra e dignidade para todos, preenchia um espaço muito importante na alma de artista do poeta. “Ele encontrou no MST, essa energia que ele tanto transmitia. Acho que foi uma forma dele se abastecer sabe? O movimento abastecia a alegria dele e ele, a do movimento”, diz. 

Baiano da cidade de Paramirim, Seu Luiz, assim como tantos outros brasileiros não conseguiu frequentar a escola. Desde criança, o trabalho na roça, no garimpo e na lavoura de algodão substituiu os cadernos e os livros. 

Só aprendeu a juntar as letras e a formar as frases que deram vida aos seus famosos poemas aos 14 anos de idade. “O pai dele que ensinou ele algumas palavrinhas e ele começou a ler, a olhar as coisas e começar a observar como as palavrinhas se formavam. Ele foi começando a escrever e a ler, a partir disso. Ele não foi para a escola não”, conta Lidiane.

Ainda jovem, Seu Luiz foi procurar trabalho em São Paulo. Entre idas e vindas conheceu o MST e conseguiu o tão sonhado pedaço de terra. Foi também no movimento que o seu caminho se cruzou com o de Lidiane e de outros militantes que ajudaram o poeta a publicar dois livros: o “Sonho Com a Terra”, de 2002 e o “Sonho com a Vida”, de 2009.

Lidiane conta que ele tinha planos de lançar mais uma coletânea de textos, mas infelizmente não teve tempo. “Inclusive, ele queria que a gente digitasse outras poesias que ele tinha feito. Ele falou assim: será que dá tempo de eu fazer um terceiro livro de poemas?Eu falei, vamos tentar! Vamos fazer! Ele pegou uma pasta cheia de poemas. Só que daí, eu já não conseguia mais compreender muito a letrinha, por que ele não estava enxergando direito. Eu ia até a casa dele com o computador, ele ia falando eu ia digitando, mas não deu tempo”, conta. 

Sempre atento à realidade do país, Luiz Beltrame escreveu sobre os acontecimentos que marcaram a vida dos brasileiros de sua época. “Ele falava muito do contexto que ele vivia, do momento que ele estava vivendo. Tem vários poemas dele sobre a ditadura militar. Ele relatava o contexto histórico, mesmo antes de entrar no movimento. Ele tinha um olhar crítico sobre alguns momentos da história do nosso país e ele relatava nos poemas dele”, lembra a pedagoga. 

Outra paixão que fazia a alma do poeta vibrar era a música. Lidiane lembra que seu pai chegou a musicar alguns textos de Seu Luiz. “Ele escrevia os poemas dele e conversava com meu pai, que toca violão. Daí, ele vinha aqui em casa com a letra e falava, Luiz - meu pai se chama Luiz também - chara, eu queria que esse poema se transformasse em música. Daí, ele cantava do jeito que ele queria, e meu pai ia tentando colocar uma melodia. Daí, eles ficavam cantando”. 

Artista, sonhador, militante, companheiro, pai, avô, bisavô e tataravô. Seu Luiz se transformou em muitos para viver tudo o que acreditava. E mesmo dois anos após a sua morte segue inspirando tantos outros que sonham um novo Brasil.  

 

 

 

Edição: Júlia Rohden