PERFIL

Das greves do ABC à greve de fome: a história de Vilmar Pacífico

Após fim do período de 26 dias sem comer, militante do MST relatou sua experiência em Curitiba

Brasil de Fato I Curitiba (PR)

,
Vilmar ao lado de quadro feito em homenagem à Lula na luta contra a fome / Juca Varella

Aos 140 dias de resistência na frente da Superintendência da Polícia Federal, os militantes da vigília receberam a visita de Vilmar Pacífico, que ficou por alguns dias no espaço. Ele foi um dos integrantes da greve de fome que permaneceu por 26 dias em frente ao STF.

Nascido em São Miguel do Iguaçu, interior do Paraná, Vilmar é militante do MST há cerca de três anos, porém a origem da militância de Vilmar é no ABC Paulista, mais especificamente em São Bernardo do Campo.

Desde 1979, ele militou junto ao sindicato dos metalúrgicos e à CUT e acompanhou de perto o início da trajetória de Lula como sindicalista e uma das principais figuras das greves do ABC. Aposentado pela Ford se retirou das suas atividades de encarregado de manutenção em 2012 e desde então veio conhecendo a militância do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Hoje Vilmar vive no acampamento Fidel Castro, em Centenário do Sul, na região norte do estado do Paraná. A comunidade alcançou, no ano de 2017, o índice zero de analfabetismo graças ao método cubano de alfabetização, “Yo, sí puedo” ou, em português, “Sim, eu posso”.

Vivências

Vilmar tem vivências como militante no meio urbano e no meio rural e afirma que a vida do trabalhador é difícil tanto no campo como na cidade. “No campo ainda a gente acha alguma coisinha pra comer. Na cidade, não”, diz Pacífico. Um dos momentos mais marcantes e inéditos para ele foi quando o ex-presidente disse que todo pobre tem direito a três refeições por dia.

Dono de uma autocrítica muito latente, sua determinação se coloca à frente de sua militância, como foi o caso da greve de fome. “Eu peguei isso com garra, com luta. E se fosse preciso ficar mais 30 dias lá na greve, eu teria capacidade de ficar para lutar por essa causa, por nosso povo, para que nosso povo tenha possibilidade de votar nesse candidato”, disse e colocou ainda que, se preciso fosse, todos os grevistas estavam dispostos a deixar a vida em frente ao STF.

Ele afirma ainda que a meta da militância deveria ser, agora, evitar erros. Ele não nega que tem críticas aos governos do campo popular que o Brasil teve e uma das suas ressalvas é, justamente, não ter sido feita a reforma agrária. Sobre a militância, ele considera uma grande falha que o povo não tenha ido às ruas quando se concretizava o golpe à segunda gestão de Dilma Rousseff.

Foi inclusive a piora na situação do país que levou Vilmar a se oferecer para entrar em greve de fome. “Eu me ofereci pelo acampamento. Eu me coloquei porque me senti muito humilhado vendo tudo isso […] A piora da situação do país, do povo da cidade, do negro, do meio rural, do índio e também inaceitável Lula preso inocente”, relata.



Calor humano x letras frias da “lei”

Durante seus 26 dias de greve de fome, ele diz que ele e os outros grevistas receberam muitas visitas calorosas, caso do Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel. Do senador Requião e do ator Osmar Prado, que se manifestou na última semana sobre a prisão de Lula na premiação do festival de cinema de Gramado.

Por outro lado, conta da frieza com que foram recebidos pelos ministros do STF, que os receberam para que eles pedissem que fossem colocadas em pauta as Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADCs), que tratam da regularidade de ordenar a prisão de um acusado após condenação em segunda instância, estágio do processo em que ainda cabem recursos e a inocência do acusado ainda pode ser decretada. Com isso, impede-se a execução provisória de pena privativa de liberdade sem que a decisão condenatória tenha completado trânsito em julgado.

“O Barroso nem nos recebeu, colocou a secretária dele para nos atender no saguão do seu gabinete. A Carmen Lúcia nos recebeu sem coração e, ao falarmos sobre as ADCs, disse que já tinha entregue seu cargo. Falamos com Toffolli também, que nos disse friamente: ‘Não vou colocar as ADCs em votação”, descreve.

De acordo com Vilmar, esse foi um dos momentos em que os grevistas perceberam que a intenção deles é justamente manter o ex-presidente encarcerado. Para ele, que assumidamente acredita no povo brasileiro, tudo isso prova a importância dos militantes para darem continuidade ao debate e às diversas lutas populares. “Acho que está na hora do povo brasileiro se unir mesmo e sair na rua que nem a gente fazia lá em 79, 80”, relembra Vilmar que, ao ver a marcha pela candidatura de Lula no dia 15 de agosto, se emocionou.

Ao analisar o papel da greve de fome junto às colunas que marcharam até o TSE, ele acredita que foi um momento importante. “Deu para mexer um pouco com o povo brasileiro e deu uma alavancada na nossa militância. Demos uma trincada na estrutura, deixamos Brasília meio assustada pelo que fizemos. Foi vitorioso”, comenta.

Perdas e Ganhos

Vilmar está hoje 12,46 kg mais magro e conta que, de três em três horas, precisa beber água e comer sopa e que os médicos o acompanham pelo celular, assim como aos outros grevistas do STF. Ele conta que encarou o sacrifício porque acreditava que era necessário fazer alguma coisa que chamasse mais atenção para a injustiça que Lula e o povo brasileiro está passando.

Ele comenta que não foi um período fácil. “Foi uma tarefa complicada. Tem horas que você sente mesmo aquela vontade de desistir de tudo, o sofrimento é grande”, conta. Ele considera que tudo o que passou foi importante e comenta que, além de terem balançado a capital, foi possível perceber que não é necessária a cobertura da mídia empresarial para que se valide algum acontecimento. “Não precisamos da Rede Globo para divulgar alguma coisa e fazer com que o nosso pessoal se junte”, explica.

“A gente tem fé, o povo tem coragem, tem luta, tem garra, tem tudo. Nós temos história”, ressalta o ex-metalúrgico, que completa: “Foi uma honra lutar e é uma honra continuar lutando pelo povo.

Edição: Pedro Carrano