Coluna

A violência política não pode esconder o perigo da pauta econômica

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O tema do evento deste ano é “Desigualdade gera Violência: Basta de Privilégio” / Rute Pina
Perigo da pauta política esconder próximos passos de Temer contra povo é grande

Hoje, 7 de setembro, é o dia do Grito dos Excluídos, protesto realizado pelos movimentos sociais há 24 anos na mesma data da chamada Independência do Brasil. Dia de gritar contra os privilégios, contra a desigualdade que gera violência e por vida. Mas também o dia em que as manchetes de todos os jornais destacam o ataque ao candidato Bolsonaro, traduzindo a violência de seu próprio discurso em ação direta e isolada contra ele. Este triste episódio é só mais um dos resultados medonhos da longa noite de terror que escureceu o país desde o golpe de 2016. Mas o perigo da pauta política esconder os próximos passos de Michel Temer contra o povo brasileiro é grande.

Nesta semana, a Consultoria de orçamento da Câmara dos Deputados apresentou estudo sobre o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias 2019, encaminhado por Temer ao Congresso Nacional. O documento apontou nova queda drástica nos investimentos públicos para saúde e educação, reflexo da Emenda 95, que congelou investimentos por 20 anos. Os cálculos da consultoria estimam corte na área da saúde de R$ 1,2 bilhão. Em educação, redução de R$ 4 bilhões, metade do total liberado este ano.

Como exemplo dos graves aspectos políticos e econômicos do golpe no país, uso alguns dados da professora e economista Tânia Bacelar, que mostram como no Nordeste a crise se acentua, tanto pelas diferenças históricas regionais, quanto pela importância das políticas públicas para a economia desses estados.

Pernambuco, por exemplo, teve um dos maiores blocos de investimentos do Brasil na última década, entre 2007 e 2016, como lembra a professora. Um total de R$ 105 bilhões de reais, quando a economia do Estado acumulava R$ 140 bilhões, ou seja, quase outro Pernambuco em investimentos, com foco na indústria, em um estado com 70% de economia baseada em serviços. Hoje, a recessão é pesada. Os investimentos tiveram queda de 62% entre 2014 e 2017.

No governo Lula, há 10 anos, o Estaleiro Atlântico Sul simbolizava o auge de uma incrível estratégia de impulsionamento da economia brasileira pela retomada da indústria naval. O deslocamento desse tipo de empreendimento em Pernambuco ativava regiões paupérrimas como a zona da mata e litoral, onde imperava a cultura canavieira.

Com o governo Temer e o final brusco da exigência da produção nacional, o estaleiro já realizou duas férias coletivas e, onde havia mais de 7 mil empregados, hoje são 3,3 mil que podem tornar-se apenas 400, isso se o empreendimento conseguir ganhar uma concorrência para realizar manutenções nos navios da Petrobrás. Férias coletivas e interrompimento da produção também na fábrica da Jeep/Fiat, em Pernambuco, com a planta deixando de produzir 930 veículos diariamente, é igualmente fruto da "persistência das condições de mercado", segundo nota oficial da empresa.

Por isso, a temática do Grito dos Excluídos é tão atual, "desigualdade gera violência"! As palavras da professora Tânia Bacelar nos oferecem um caminho. A violência política não pode nos amedrontar. Os candidatos da centro-esquerda não podem ceder à tentação de, em 30 dias de eleições, resumirem-se aos debates do campo exclusivo das emoções. A hora é de reforçar a importância da pauta sobre as despesas financeiras do país, os juros, as isenções de imposto e as renúncias fiscais que canalizam o dinheiro público para as mãos de 1% em detrimento dos 99%. O desafio será a superação urgente do fato político (o atentado contra o candidato da extrema-direita) e retomar o debate econômico, social e ambiental até o dia 7 de outubro.

*Jonatas Campos é jornalista, ex-repórter de jornais locais, da Revista Caros Amigos e ex-correspondente na Venezuela pelo Opera Mundi e Brasil de Fato.

Edição: Nina Fidelis