Cinema

Filme paranaense ganha festival com temas como internet e bullying

Em entrevista, diretor Aly Muritiba fala de “Ferrugem”, o melhor filme brasileiro do Festival de Gramado

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Na foto, Aly conversa com elenco jovem antes de rodar a cena / Divulgação

Em entrevista exclusiva para o Brasil de Fato, o cineasta baiano radicado em Curitiba Aly Muritiba conta como foi fazer “Ferrugem”, vencedor de melhor filme brasileiro no Festival de Gramado, o mais tradicional evento de cinema do país. Ele, que atua como diretor e roteirista, junto com Jessica Candal, diz que uma das razões foi poder se comunicar com o mundo dos seus filhos.

Brasil de Fato – “Ferrugem” trata de temas atuais como internet, redes sociais, bullyng, juventude… De onde veio a inspiração para o roteiro? 

A vontade de trabalhar com essa temática surgiu há uns oito anos, quando eu era professor numa escola particular em Curitiba e comecei a perceber a chegada dos smartphones nas salas de aula, da  hiperconectividade na vida dos adolescentes.  Refletindo sobre o impacto tanto positivo como negativo na vida dos jovens, comecei a ficar com vontade de falar dessa geração. Anos depois, meu filho chegou à adolescência e eu me vi no dilema de permitir ou não o contato dele com a internet. Achei que fazer um filme sobre esse tema, mas principalmente sobre os maus usos que se tem feito, seria uma maneira também de falar com os meus filhos. Mas eu não queria abordar isso de maneira leviana ou maniqueísta. A abordagem escolhida foi sutil, convidamos o expectador a participar da reflexão e construção do filme. Queria que o filme não fizesse o que a internet faz: que é transformar todo mundo em carrascos e juízes.

BdF - Sua equipe de trabalho é majoritariamente feminina num mundo do cinema ainda bastante machista. De que forma esse posicionamento reflete sua visão a respeito do mercado cinematográfico? 

A gente fala no filme de misoginia e também de machismo. Nos últimos dois ou três anos se discute muito no meio cinematográfico o quanto o cinema brasileiro é masculino, o quanto as mulheres têm pouquíssimas oportunidades de trabalhar, o quão pouco são convidadas a criar ou lhes é permitido fazer. Diante de toda essa discussão nos comprometemos a agir. No filme, onde havia duas funções, colocamos um homem e uma mulher, quando era apenas uma, convidávamos uma mulher. Nossa equipe foi formada por 70% por mulheres. 

BdF - Diante da crise pela qual passa o país e a cultura brasileira, como um diretor e roteirista paranaense recebe a notícia do prêmio de melhor filme nacional? 

É curioso viver uma crise política, social, econômica e moral tão grande, com ascensão absurda do conservadorismo, e o melhor filme brasileiro vir de Curitiba, uma cidade que se tornou símbolo da caça às bruxas e que vem sendo promovida indiscriminadamente pelo Ministério Público e pela Justiça brasileira, que hoje em dia condena sem provas. É incrível que tenha sido deste lugar que tenha saído um filme que fala sobre empatia, tolerância… É contraditório e me deixa muito feliz por saber que somos vários Brasis, são várias curitibas, vários paranás. Não é o que aparece na mídia, não existe República de Curitiba, existem várias outras curitibas interessantes, que abrigam várias outras pessoas de outros lugares, que movimentam arte e cultura, como é também meu caso que sou baiano e vim pra cá. E fazer este filme. 

Edição: Laís Melo