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Até aqui nos trouxe o rio

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Até aqui as forças do Progresso vieram trazidas pelas correntezas da decepção com o golpe / Ricardo Stuckert/PT
Há que se apresentar aos eleitores as propostas factíveis do plano de governo

Divulgada a primeira rodada de pesquisas que tentam captar os efeitos conjugados da impugnação de Lula, da transição para a candidatura Haddad/Manuela e das reações ao ataque a Bolsonaro, alguns elementos merecem destaque: (i) a rápida queda do “não voto”; (ii) a ascensão significativa de Haddad mesmo antes da formalização da alteração da chapa; (iii) o impacto marginal da facada nas intenções de voto e na taxa de rejeição de Bolsonaro (ainda que IBOPE discrepe de Datafolha nestes quesitos); (iv) uma disputa de quatro nomes pela “segunda vaga” no segundo turno.

Feitas todas as ressalvas de praxe – seja quanto ao caráter “fotográfico” das pesquisas, seja sobre qual será o efeito futuro das campanhas no voto ou, ainda, o imponderável que cada vez mais marca presença em nossas eleições – parece ter se cumprido uma primeira fase da disputa, com uma candidatura de extrema-direita “à espera” de adversário ainda não definido, mas muito mais provavelmente oriundo das forças antigolpe e progressistas.

Seja quem for o representante do Progresso no segundo turno, há um novo desafio colocado desde já e cuja intensidade só se ampliará, inclusive extrapolando o período eleitoral em direção aos fatídicos “100 dias” do início de 2019. Não bastará, para o enfrentamento do golpe e de sua boia de salvação eleitoral – o discurso da Ordem, que lhes permite não serem explícitos nas propostas econômicas e sociais –, que o campo progressista se fixe, apenas, na memória do “tempo bom” simbolizada tão fortemente no apoio de Lula. Há que se apresentar para os eleitores um curto rol de propostas práticas, cativantes, factíveis, que sintetizem de modo cirúrgico o programa de governo que guia a candidatura.

Nunca é demais lembrar que a passagem ao segundo turno e a vitória nele são as etapas mais fáceis da tarefa que as forças do Progresso têm pela frente. O golpe existiu, existe e tudo fará para se perpetuar, para perpetuar a implantação de toda sua agenda que, apesar de já executada em pontos críticos como a EC da Morte e a deforma trabalhista, ainda tem muitos mais males a praticar (a deforma das aposentadorias sendo um de seus marcos decisivos).

Isto equivale a dizer que nossa batalha de início de um novo governo da República será titânica e que, portanto, um plano de medidas emergenciais de alto impacto e de resultados imediatos deve já ter passado por aprovação explícita das urnas para a geração de forças suficientes para sua pronta execução, provando ao eleitor que sua escolha fez sentido e merece ser defendida tenazmente.

Seja como instrumento eleitoral, seja como preparo da guerra a ser enfrentada a partir do Planalto, o rol sintético me parece ser um instrumento político essencial e urgente. Adicionalmente, será também em torno desses pontos mínimos que se facilitará a construção das alianças fundamentais para a vitória eleitoral em 28 de outubro.

A proposta de Ciro Gomes – “tirar você do SPC” – é um dos ótimos exemplos do que julgo ser a necessidade para já. A ela se associariam facilmente pontos de destaque dos programas das coligações PT/PCdoB/PROS e PSOL/PCB. Em uma relação meramente indicativa, deveriam ser considerados pontos como a retomada imediata de todas as obras federais paralisadas, com contratação imediata de muitos trabalhadores e compra emergencial de insumos e serviços; a revisão da tabela de desconto de IR, com isenção para as faixas inferiores de rendimentos; a destinação de grande volume de recursos dos bancos estatais para a expansão de crédito ao consumidor com baixas taxas de juros; uma dura regulamentação pró consumidor dos planos privados de saúde acompanhada por ações de impacto na recuperação do SUS; a revisão imediata da deformação da CLT; a retomada da valorização real do salário mínimo; a recuperação da política de conteúdo nacional nas compras governamentais e das empresas estatais, com destaque para o complexo petróleo e gás.

É na tradução de programas de governo complexos e detalhados em ideias-força de simples apreensão e muito coladas aos desejos e interesses imediatos dos eleitores que as candidaturas progressistas poderão desnudar o que se esconde por trás do discurso da Ordem: a continuidade e aprofundamento do golpe e do governo Temer, com toda sua carga negativa de desmontes e sacrifícios já mais do que percebida pelos brasileiros, inclusive por muitos que apoiaram ou foram indiferentes ao impeachment da presidente Dilma. E serão, também, essas ideias que vertebrarão o início de governo a partir de janeiro do próximo ano, fornecendo-lhe as alavancas sociais para remover o entulho golpista.

Até aqui as forças do Progresso vieram trazidas pelas correntezas da decepção com o golpe e do absoluto descrédito do governo de plantão. A memória do “tempo bom” já deu o impulso adicional que se reflete na crescente intenção de voto nos candidatos deste campo e na marcante redução da desesperança do “não voto”.

Até aqui nos trouxe o rio. Agora é hora de remarmos muito, tendo por vela e leme propostas objetivas, para superar os saltos dos dois turnos e adentrar com firmeza as águas revoltas de mais um governo democrático, nacionalista, desenvolvimentista e popular.

*Artur Araújo é administrador hoteleiro, ex-diretor da Embratur , é consultor em gestão pública e privada

Edição: Juca Guimarães