ELEIÇÕES

Por mais mulheres na política e novas prioridades

Candidatas lutam para conquistar mais cadeiras no parlamento e dar voz às mulheres

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Fórum de Mulheres de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco realizaram um debate com candidatas a deputadas de esquerda / Péricles Chagas/PT

Um levantamento recente da União Interparlamentar, organização internacional que estuda práticas no legislativo de diversos países, colocou o Brasil na 152ª posição (entre os 190 países) no ranking de participação feminina no legislativo. Temos apenas 54 mulheres entre os 513 parlamentares no Congresso Nacional, o que equivale a 10,5% - uma disparidade enorme em relação à população, já que as mulheres são 51,6% da população brasileira.

Para mudar esse cenário e tornar os espaços de poder mais femininos e mais próximos às demandas das mulheres, o Fórum de Mulheres de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco realizaram, na última terça-feira (11), um debate com candidatas a deputadas estaduais e federais. Mais de 10 candidatas de partidos de esquerda falaram sobre suas prioridades e da importância da luta e participação das mulheres no atual cenário político, de crescimento do conservadorismo, machismo e discurso de ódio.

Entre as candidatas a deputadas estaduais, três são do Partido dos Trabalhadores (PT). A jornalista e militante de Direitos Humanos Sylvia Siqueira Campos defendeu o limite de dois mandatos por parlamentar. “Além disso, precisamos ter nas políticas públicas o olhar do feminismo, do antirracismo e do anticapitalismo. Por isso sugiro que pensemos também políticas de educação adequadas ao nosso projeto de desenvolvimento”, sugeriu Sylvia. A professora universitária Liana Cirne destacou as dificuldades para as mulheres fazerem campanha na primeira eleição pós-golpe de 2016 e com o principal líder popular preso. “É um momento de ascensão do machismo, do racismo e da LGBTfobia. O fascismo saiu do armário. As pessoas agora se orgulham de ser preconceituosas”, lamentou.

Entre as presentes, a única com mandato e tentando reeleição foi Teresa Leitão, professora da rede estadual, sindicalista e deputada desde 2002. “Sabíamos da nossa responsabilidade e como seríamos encaradas. O nosso mandato não poderia ser burocrático. Por isso temos um conselho político formado por pessoas que não são do meu gabinete, mas militantes de movimentos sociais”. Na opinião de Teresa, a principal luta das mulheres para o próximo ciclo é para que o aborto deixe de ser crime. E lamentou a pouca atenção que os políticos dão ao direito de as mulheres decidirem sobre o próprio corpo. “Desde que entrei na Assembleia Legislativa, só vi a questão do aborto ser discutida uma vez, por conta de um aparte que fiz durante um debate sobre planejamento familiar”.

As questões relativas às mulheres negras também foram constantes no discurso das candidatas. Luiza Carolina (PCB) afirma que estas são os pilares da resistência contra os retrocessos. “No ano em que se fala dos 130 anos de uma abolição fictícia, nós continuamos do mesmo jeito, sendo escanteadas pelo Estado”. Verônica Magalhães (PCdoB) pautou o combate ao analfabetismo das mulheres negras. A candidatura das Juntas (PSOL) propõe um “mandato coletivo”. Duas das co-candidatas participaram do debate. A trabalhadora ambulante Jô Cavalcanti, que terá sua foto na urna, disse que “a mulher negra que vai aparecer na urna não estará sozinha, mas com todas as outras que têm a voz silenciada há tanto tempo”. Participaram ainda as candidatas a deputadas estaduais Joana Casotti (PCdoB), Deyse Medeiros (PSTU), Valéria Félix (PSTU) e Robeyoncé Lima (PSOL).

Da mesa das candidatas a federal participaram quatro mulheres. Gaby Conde (PSOL) destacou a importância das negras para as transformações necessárias à sociedade. “Somos a base da estrutura social. Por isso, como diz Angela Davis, quando as mulheres negras se movimentam, elas movimentam a sociedade”. Kellen Silva (PSTU) foi mais uma a defender a legalização do aborto. “É doloroso para a mulher fazer esta opção. Mas precisamos tratar o tema como saúde pública. As mulheres pobres, trabalhadoras, não têm dinheiro para recorrer às clínicas particulares para fazer aborto, e acabam abortando por conta própria e morrem por isso”, pontuou.

Michele Santos (PSOL), advogada do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto em Caruaru, defendeu mudanças nas leis para garantir maior participação feminina nos postos de tomada de decisão. “Precisamos de novos marcos legais para garantir a participação efetiva das mulheres na política, porque os que temos hoje não estão dando conta. Temos cota de 30% das candidaturas para mulheres, mas só isso não dá conta”, indicou Michele. A estudante Flávia Hellen (PT) pautou a convocação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte para que o povo possa opinar e modificar temas da Constituição. “Não teremos políticas concretas e nem nossas pautas atendidas se não tivermos uma Constituinte para mudar as regras do jogo”, alertou.

Não participaram das mesas, mas também estiveram presentes a candidata a senadora Eugênia Lima (PSOL) e as candidatas ao Governo do Estado Dani Portela (PSOL) e Simone Fontana (PSTU). Todas as candidatas receberam um documento, elaborado pelas organizações, apresentando um diagnóstico das mulheres no estado e apontando pautas para as candidaturas

Edição: Catarina de Angola