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Como o descaso com verbas para a cultura influenciou o incêndio do Museu Nacional?

João Brant, ex-secretário executivo do Ministério da Cultura, responde a pergunta do quadro

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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O incêndio no Museu Nacional começou por volta das 19h30 do dia 2 de setembro e queimou grande parte do acervo histórico / Tânia Rego/ Agencia Brasil

O Museu Nacional, instituição desse segmento mais antiga do país, foi atingindo por um incêndio na noite do dia 2 de setembro. O acervo contava com mais de 20 milhões de itens. Dentre eles estava Luzia, fóssil humano mais antigo já encontrado em território brasileiro. Muitos dos objetos históricos foram consumidos pelas chamas.

O Museu foi criado por D. João VI em 1818, com o objetivo de promover o progresso da economia e da cultura do Brasil. Desde 1946, o local é vinculado a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).Os coordenadores da instituição denunciam a falta de investimentos para fazer fazer manutenção básica no prédio e até as medidas de segurança para a prevenção de incêndio. 

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A costureira Akemi quer saber como o descaso do governo com verbas destinadas a cultura influenciou o incêndio do Museu Nacional:

"Meu nome é Akemi Nozuma, tenho 68 anos, sou costureira, eu gostaria de saber como que o descaso do governo em verbas públicas influenciou no incêndio do Museu Nacional, e o que fazer para evitar novos incêndios em outros museus?"

João Brant, secretário executivo do ministério da Cultura durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, responde às questões.

"Oi Akemi, excelente pergunta, meu nome é João Brant, atuo na área de política, cultura e educação, fui secretário executivo do Ministério da Cultura em 2015 e 2016. Certamente a questão do incêndio teve a ver sim com descaso em relação às verbas públicas. Nós temos um cenário no Brasil em que a gestão dos museus federais depende bastante dos recursos do governo e o que nós estamos vendo nos últimos anos é uma diminuição muito significativa dos recursos dedicados à gestão desses espaços e a própria cultura. O Ministério da Cultura tem passado por dificuldades e a UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, gestora do museu, passa por dificuldades e isso acaba rebatendo e dificultando a atuação e a gestão do museu. O que aconteceu ali, a necessidade de verbas que o museu tinha era muito maior do que a que ele recebia a cada ano.

O Museu da UFRJ, o Museu Nacional, era um museu muito ligado as atividade de ensino e pesquisa, isso fazia com que ele tivesse um uso muito frequente, mas a falta de estrutura do museu fazia com que a preservação desse acervo e a condição de exposição ao público tivesse sempre muito limitada por conta do limite das verbas públicas. Então, para gente evitar tragédias como essa, nós temos que, em primeiro lugar, valorizar a cultura e esse aspecto da memória do patrimônio como aspectos centrais da nossa cultura. Isso significa dar verbas decentes e uma condição de investimento que cubra todas as necessidades de um museu, passa também por pensar em modelos de gestão alternativos, sem que isso signifique a privatização desses acervos, mas de forma a ampliar a potencialidade de recursos que podem ingressar em um museu como esse. Significa e gente como sociedade, valorizar esses bens." 

Edição: Camila Salmazio