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Em tempos de golpe, reivindicações de grevistas são semelhantes às de 1917

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Greves, em 2017, exigiam direitos como o pagamento de salário em dia e/ou o pagamento do piso salarial / CUT Brasília
Greves defensivas foram motivadas por descumprimento de direitos básicos

Desde 2015 os movimentos sociais e especialistas de diversas áreas já vinham alertando sobre os efeitos perversos da política de ajuste fiscal sobre a economia brasileira. O golpe de 2016 consolidou e aprofundou a lógica neoliberal sob a condução do Estado nacional. 

Sob argumentos falaciosos sustentado pelos economistas “de mercado” – que creditavam a crise econômica a um excesso de gasto público, a manutenção de aumentos contínuos no salário mínimo e inflação alta –  a coalização política golpista aplicou o “receituário” liberal para, segundo eles,  fazer a economia voltar a crescer com equilíbrio fiscal nas contas públicas.

Eles erraram no diagnóstico da “doença”  e, consequentemente, o “remédio” aplicado falhou.  

O aumento constante e exorbitante do número de desempregados, a ausência de perspectivas de a economia voltar a crescer, os salários médios cada vez mais baixos e a classe trabalhadora cada vez mais endividada não tem impacto –somente – sobre a dignidade humana e as perspectivas de construir um país que caminhe no sentido da redução das desigualdades sociais, senão que são efeitos extremamente perversos sobre o mercado de trabalho e a negociação coletiva dos trabalhadores.

Em 2013, quando o desemprego estava baixo, a economia crescia e ampliavam-se os postos de trabalho formal, explodiam no Brasil diversas greves de trabalhadores, das quais – na sua imensa maioria – detinham caráter “propositivo”, ou seja, greves que tinham como reivindicações centrais a ampliação de direitos além dos já assegurados. 

Em 2017, por outro lado, o “balanço das greves” – realizado pelo Dieese – é desolador. Em um cenário de aumento do desemprego, onde os trabalhadores têm um medo permanente de serem demitidos, o número de greves sofre uma baixa significativa. De 2013 a 2017 houve redução de 25% do total de greves deflagradas no país. 

Por outro lado pioraram muito as condições de trabalho. Ao contrário de greves propositivas, que tinham como objetivo forçar a ampliação e conquistas de direitos, 81% das greves de 2017 incluíam uma pauta “defensiva”, ou seja, foram mobilizações simplesmente pelo cumprimento dos direitos já assegurados.  

Como se não bastasse isso, 56% desse conjunto de greves defensivas foram motivadas por descumprimento de direitos básicos, como o pagamento de salário em dia e/ou o pagamento do piso salarial. 

No mesmo ano de 2017 em que comemoramos 100 anos da primeira Greve Geral brasileira, a pauta de reivindicação contra o atraso do pagamento do salário volta a cena, tal como em 1917. 

Enfraquecer o papel dos sindicatos, manter altos índices de desemprego e flexibilizar ao extremo as relações trabalhistas tem sido a “fórmula” para que os golpistas pudessem ter “o seu Brasil de Volta”. Assim fica difícil não aceitar que estamos vivendo sob fortes retrocessos.

Retomar o crescimento econômico para gerar emprego, revogar a reforma trabalhista e ampliar a proteção estatal sob o mercado, são o caminho para reduzir a vulnerabilidade dos trabalhadores e avançar na conquista de direitos.

Edição: Daniela Stefano