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“As mulheres precisam de políticas e programas para continuarem vivendo melhor”

Cícera Nunes é a primeira mulher eleita a presidir a Fetape, em 56 anos da federação

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Cícera Nunes assumiu ä presidência da FETAPE no último dia 05. / Tádzio Estevam

A agricultora sertaneja Cícera Nunes é a primeira mulher eleita como presidenta da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras de Pernambuco (Fetape). A federação, que completou 56 anos em 2018, é composta por 176 sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais em todo o estado. O Brasil de Fato Pernambuco esteve na cerimônia de posse da nova diretoria, em Carpina, na Mata Norte, no último dia 05, e conversou com a presidenta sobre seus planos e os desafios que enxerga a frente da federação pelos próximos quatro anos. 

Brasil de Fato – Qual sua expectativa para a gestão da Fetape, que se inicia agora, tendo em conta que você é a primeira mulher eleita para essa posição?

Cícera Nunes - São várias as expectativas que temos para a gestão da Fetape, entre elas, a atual conjuntura de transformar as perdas de direitos que temos tido nesses últimos dois anos, e que foram grandes, se referindo ao que temos como direitos garantidos, que vinham como políticas do MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário] e MDS [Ministério do Desenvolvimento Social]. Várias políticas foram cortadas e a nossa expectativa é que possamos ter mais programas sociais e políticas públicas para a mulher e o homem do campo. Com relação a convivência com o Semiárido, com a questão da agroecologia, da água, das cisternas, e da reforma agrária, que em Pernambuco ainda é muito precária. Precisamos avançar mais em acesso à terra, acesso à produção nos assentamentos, mas também na agricultura familiar que não são os assentados, mas que tem sua agricultura em seu pedacinho de terra. Outro desafio é a luta contra a violência no campo que é muito grande, em especial para as mulheres, que são muito violentadas. E a Fetape já tem pautado essas questões através da Marcha das Margaridas e do Grito da Terra, onde a gente tem reivindicado essas políticas e programas, tanto no governo do estado, como no governo federal. Então, são expectativas que estão em nossas bandeiras de luta, e, além disso, nós também temos várias outras expectativas que estão na questão da juventude rural, da terceira idade, que tem aumentado o número de idosos e idosas no campo. Os sindicatos e a Fetape também têm pautado isso, então são expectativas e muitas lutas. Precisamos lutar bastante para conquistar algumas políticas, mas é o real, e nós mulheres e homens estão dispostos nessa nova gestão a continuar o que vem sendo feito e a continuar novas expectativas para o homem e a mulher do campo.

Brasil de Fato - Quais são os desafios para melhorar a vida das mulheres camponesas?

Cícera - Essa trabalhadora precisa ter comida para ela e para sua família, ter moradia, a educação, a saúde, que são os direitos básicos para um ser humano sobreviver. As mulheres rurais são responsáveis, na maioria das vezes, pelas casas, são chefes de famílias, outras são viúvas da seca, que os maridos vão embora em época de seca e aí esses sete anos de seca muitos homens foram embora e as mulheres ficam. O Programa Bolsa Família tem evitado um pouco isso, mas agora diminuiu bastante, milhares de pessoas não tem mais esse programa. São programas emergenciais que poderiam dar certo para diminuir essa sobrecarga das mulheres e diminuir também a fome, tanto das mulheres, como de suas famílias. E as mulheres rurais também são responsáveis por grande parte de uma agricultura orgânica, de sementes orgânicas, dos bancos de sementes. São as mulheres que cuidam nos quintais, em suas pequenas roças, pequena propriedades de terra. Então as mulheres precisam de subsídios de políticas públicas e programas para continuarem lutando e vivendo melhor. Com políticas públicas e acesso ao Estado brasileiro para que tenham uma vida melhor, junto a sua família.

Brasil de Fato – Como você avalia a importância dos movimentos sociais, e de que forma você pensa em fazer diálogo com eles?

Cícera - A Fetape sempre teve esse diálogo com os movimentos sociais e essas últimas gestões se aproximaram muito de instituições como a ASA, que tem várias ONGs participando dela, com o MST, com o Fórum de Mulheres de Pernambuco, organizações de mulheres, como a Articulação de Mulheres Brasileiras, a Marcha Mundial das Mulheres. Nós temos nos articulado muito nos últimos anos, e isso é fundamental para uma classe que luta por direitos. Uma classe tem várias categorias dentro dela, tem rural, tem urbano, e quando a gente se soma com outros que lutam pelo objetivo comum, pelos mesmos direitos, a gente fica bem mais forte lutando junto. E isso se dá pela falta de direitos e também porque temos algo em comum, mulheres rurais e urbanas, e nos somamos a essas organizações em busca de vida digna. 

 

Edição: Catarina de Angola