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Da Revolução Severina ao #EleNão: a politização das mulheres

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“Éramos felizes e sabíamos! #EleNão para o Brasil voltar a ser feliz de novo”, gritavam as manifestantes no ato de Salvador (BA) / Foto: Camila Almeida /MMM Bahia
Manifestação, que reuniu mais de 3 milhões, já é a maior do feminismo no Brasil

Sábado, 29 de setembro de 2018, 14h30, Salvador (BA). Uma multidão de pessoas chegando à Praça do Campo Grande para a manifestação contra o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL), conhecida pela palavra de ordem “#EleNão”. Nas redes sociais, o #EleNão é um movimento articulado por três milhões de mulheres com o objetivo de barrar o fascismo representado por essa candidatura e com potencial para ir além das manifestações do último sábado, pois quem participou das manifestações viu que não há mais como calar a voz altiva e ativa das mulheres brasileiras.

Das tantas cenas lindas e emocionantes que presenciei, das tantas mulheres que conheci e cujas lutas reconheci como minhas também, dona Amália foi quem mais me emocionou: dezenas de mulheres caminhavam para a Praça do Campo Grande quando uma [caminhonete] SUV passou em alta velocidade e o motorista gritou: “Bolsonaro é mito, suas vagabundas”. No auge dos seus 73 anos, dona Amália respondeu brava: “vagabundo é seu pai que não te ensinou a respeitar uma mulher”.

Rimos alto, quase antecipando a catarse que ocorreria nas horas seguintes daquela manifestação inesquecível. Foi quando aquela senhora forte me perguntou: “você combate qual tipo de Bolsonaro?”. Antes que eu respondesse aquela pergunta inesperada, ela me contou brevemente sua história. Nascida em Cícero Dantas – antiga Bom Sucesso –, cidade do semiárido da Bahia que carrega o nome de um antigo e poderoso coronel local, dona Amália é a sétima filha de nove irmãos, cuja mãe morreu precocemente por falta de atendimento médico na cidade. Aos 10 anos, seu pai a entregou para uma família importante de Salvador com a promessa de que ela estudaria enquanto “ajudaria nos serviços domésticos da casa”.  “Essa era a sina de muitas de nós do sertão”, disse-me dona Amália, que não estudou, trabalhou sem hora para iniciar e terminar, sofreu todo tipo de humilhação, passou fome, chorou muito “até encontrar o pai dos meus filhos, aquele traste”.

Dona Amália conheceu Joseilton em um forró na Cidade Baixa e depois de seis meses de namoro se casaram e tiveram três filhos. O casamento foi feliz até Joseilton ser demitido, começar a beber e a ser muito violento. “Era pinga e porrada toda noite, e larguei aquele traste depois que passei a receber o [benefício] Bolsa Família de quase R$ 50”. Com esse valor, dona Amália fugiu de casa com seus filhos e foi morar com uma amiga em um bairro longe de Salvador, chamado Valéria. Começou a fazer faxina diariamente e voltou a estudar à noite.

Com o passar do tempo, o [valor do] Bolsa Família passou para R$ 210 e dona Amália começou a construir a sua laje e “amarrou as trompas” logo depois do divórcio e de se casar pela segunda vez com um “homem bom”, que se encontraria com ela na manifestação depois que ele saísse do trabalho. Caminhei até a Praça do Campo ouvindo a história de vida da sertaneja guerreira e ela me disse: “cada uma de nós está aqui lutando contra um Bolsonaro. O meu é esse: não quero que esse monstro tire o Bolsa Família de mulheres como eu porque isso significou uma revolução na minha vida”.

Durante os governos petistas, a renda mensal repassada a 93% de mulheres responsáveis pelo Cartão Cidadão do Bolsa Família libertou-as das várias violências de uma vida em constante transitoriedade geográfica, econômica, emocional, efetiva. A estabilidade de uma renda fixa, por menor que seja – e é preciso ser muito miserável para que R$ 210 faça diferença na vida de alguém -, possibilitou que mulheres sertanejas planejassem suas vidas, suas maternidades e suas afetividades. Novos sentimentos, novas experiências, novos movimentos e a politização das sertanejas/severinas não tem mais volta, felizmente. Foi o que se viu na manifestação antifascista e antibolsonarista no sábado aqui em Salvador, na maior parte do país e em vários lugares do mundo. Muitas delas gritavam: “Éramos felizes e sabíamos! #EleNão para o Brasil voltar a ser feliz de novo”!  

Embora a frase seja o slogan da campanha do presidenciável Fernando Haddad (PT), o que se viu no sábado aqui em Salvador foi uma manifestação com 100 mil pessoas, entre as quais mulheres de todos os credos, classes sociais e partidos políticos, conferindo uma enorme diversidade e um caráter altamente politizado da manifestação.

Diferentemente de 2013, a manifestação #EleNão contou com a presença de vários partidos e com inúmeras campanhas nas ruas, especialmente de mulheres candidatas ao Legislativo. As organizadoras fizeram questão de marcar posição sobre o caráter suprapartidário do movimento e não apartidário, pois uma das principais demandas do movimento é por mais mulheres progressistas ocupando espaços de representação, nas estruturas internas do Estado.

Nós soubemos que aquela manifestação seria inesquecível para a Bahia quando o trio elétrico de Daniela Mercury deu os primeiros acordes de uma guitarra baiana, acompanhada por milhares de mulheres cantando a versão brasileira da histórica canção antifascista “Bela Ciao” e depois pela palavra de ordem “#EleNão”, repetida incontáveis vezes por uma multidão linda e combativa contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) e tudo o que significa de retrocesso em direitos conquistados, o que significa de miséria, ódio, violência, machismo, obscurantismo e de ameaça do fascismo no Brasil.

Vinte e quatro horas depois das manifestações que levaram quase três milhões de pessoas às ruas de todo país, o #EleNão já é a maior manifestação feminista da história brasileira. Que o movimento tenha vida longa e seja o ponto de partida para a nossa Revolução Severina, um país democrático e diverso para todas e todos.

 

Patrícia Valim é professora de História do Brasil Colonial da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e conselheira do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Perseu Abramo. Mãe de Ana, Bento e Maria, e avó de Maria Antônia.

Edição: Cecília Figueiredo