Eleições 2018

"Bolsonaro significa tragédia social e ecológica para o país", diz pesquisadora

Professora de Geografia da USP, Larissa Mies Bombardi critica as políticas de agricultura do candidato do PSL

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No programa de Bolsonaro, não há nenhuma menção à agroecologia, à reforma agrária e ao controle do uso de agrotóxicos
No programa de Bolsonaro, não há nenhuma menção à agroecologia, à reforma agrária e ao controle do uso de agrotóxicos - Marcello Casal Jr. / EBC / Reprodução

Apesar do mote da campanha do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) ser pautado na ideia de "devolver o Brasil aos brasileiros", a questão da segurança e da soberania alimentar dentro do âmbito das políticas de agricultura sequer são mencionadas em seu plano de governo, o que, para a pesquisadora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Mies Bombarbi, deixa o setor à mercê dos interesses do mercado.

Além da ausência da questão alimentar, a autora do Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, acrescenta não haver nenhuma menção no programa do presidenciável à agroecologia, reforma agrária e ao uso de agrotóxicos.

"Toda ideia do programa dele não está assentada na alimentação, o foco não está na saúde humana ou ambiental, está no mercado externo. E é minha obrigação como cientista, professora e mulher alertar a população: se esse candidato vencer as eleições a gente vai ter uma tragédia ecológica e social no Brasil. Isso tem que ficar muito claro", avalia, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual.

Bolsonaro apresenta propostas relacionadas à segurança no campo com base no acesso às armas de fogo, dentro de um contexto de crescimento da violência no meio rural, e menciona políticas voltadas à logística e armazenamento e consolidação e abertura de mercados externos. "O 'deus' mercado é que vai reger todas as coisas e sabemos o que isso significa", aponta.

Na comparação com o candidato que aparece em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, Fernando Haddad (PT), a pesquisadora anotou que há no texto um compromisso com a segurança e a soberania alimentar. Além disso, também é previsto um programa de redução no uso de agrotóxicos, com revisão do incentivos fiscais e tributários para os insumos químicos. "Há uma previsão até 2030, um certo 'pé no chão' de que a gente não vai virar tudo do avesso de uma hora pra outra. Inclusive no item seguinte há um reconhecimento da importância do agronegócio no PIB brasileiro."

"Fiquei positivamente surpresa ao ler o programa porque está muito bem fundamentado", diz Larissa, avaliando que se trata de um avanço em relação aos programas de governo anteriores da legenda. "Acho que o PT acordou e entendeu que não dá para descer o rio com um pé em cada canoa. A gente tem que escolher qual o pacto de sociabilidade que vai fazer, se é um que envolve soberania, segurança alimentar e natureza, ou se é um outro pacto voltado para o mercado externo".

Edição: Rede Brasil Atual